No encerramento da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
2007
Queridos irmãos e irmãs:
Acaba amanhã a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, que neste ano tem por
tema as palavras do Evangelho de Marcos: «Ele faz os surdos ouvirem e os mudos
falarem» (Marcos 7, 37). Podemos, também nós, repetir estas palavras que
expressam a admiração das pessoas ante a cura de um surdo-mudo realizada por
Cristo, ao ver o maravilhoso florescimento do compromisso pela recomposição da
unidade dos cristãos. Ao repassar o caminho dos últimos quarenta anos, é
surpreendente como o Senhor nos despertou da auto-suficiência e da indiferença;
como nos torna cada vez mais capazes de «escutar-nos» e não só de «ouvir-nos»;
como nos soltou a língua de maneira que a oração que lhe elevamos tenha mais
força de convicção para o mundo. Sim, é verdade, o Senhor nos concedeu muitas
graças e a luz de seu Espírito iluminou muitos testemunhos. Demonstraram que
tudo se pode alcançar rezando, quando sabemos obedecer com confiança e humildade
o mandamento divino do amor e aderir ao anseio de Cristo pela unidade de todos
seus discípulos.
«O empenho pelo restabelecimento da união corresponde à Igreja inteira -- afirma
o Concílio Vaticano II --, afeta tanto os fiéis como os pastores, a cada um
segundo seu próprio valor, seja na vida cristã diária, seja nas pesquisas
teológicas e históricas» («Unitatis redintegratio», 5). O primeiro dever comum é
o da oração. Rezando, e rezando juntos, os cristãos alcançam uma maior
consciência de sua condição de irmãos, ainda que estejam divididos; e rezando
aprendemos a escutar melhor o Senhor, pois só escutandoao Senhor e seguindo sua
voz podemos encontrar o caminho da unidade.
O ecumenismo é certamente um processo lento, às vezes talvez inclusive
desalentador quando se cede à tentação de «ouvir» e não de «escutar», de dizer
as verdades pela metade, em vez de ter a valentia de proclamá-las. Não é fácil
sair da «surdez cômoda», como se o Evangelho inalterado não tivesse a capacidade
de reflorescer, reafirmando-se como fermento providencial de conversão e de
renovação espiritual para cada um de nós.
O ecumenismo, como dizia, é um processo lento, é um caminho lento e de subida,
como todo caminho de arrependimento. Contudo, é um caminho que, depois das
dificuldades iniciais e precisamente nelas, apresenta também grandes espaços de
alegria, pausas refrescantes, e permite de vez em quando respirar o ar puríssimo
da plena comunhão.
A experiência destas décadas, depois do Concílio Vaticano II, demonstra que a
busca da unidade entre os cristãos se realiza em diferentes níveis e em
inumeráveis circunstâncias: nas paróquias, nos hospitais, nos contatos entre as
pessoas, na colaboração entre as comunidades locais em todas as partes do mundo,
e especialmente nas regiões onde cumprir um gesto de boa vontade a favor de um
irmão exige um grande esforço e também uma purificação da memória. Neste
contexto de esperança, salpicado de passos concretos rumo à plena comunhão dos
cristãos, enquadram-se também os encontros e os acontecimentos que marcam
constantemente o ritmo de meu ministério, o ministério do bispo de Roma, pastor
da Igreja universal. Quero agora percorrer os acontecimentos mais significativos
que aconteceram em 2006, e que foram motivo de alegria e de gratidão ao Senhor.
O ano começou com a visita oficial da Aliança Mundial das Igrejas Reformadas. A
comissão internacional católico-reformada apresentou à consideração das
respectivas autoridades um documento que conclui com um processo de diálogo
empreendido em 1970, que durou, portanto, 36 anos. Esse documento tem como
título «A Igreja como comunidade de testemunho comum do Reino de Deus».
Em 25 de janeiro de 2006, portanto, há um ano, na solene conclusão da Semana de
Oração pela Unidade dos Cristãos participaram, na Basílica de São Paulo Fora dos
Muros, os delegados para o ecumenismo da Europa, convocados conjuntamente pelo
Conselho das Conferências Episcopais da Europa e pela Conferência das Igrejas
Européias para a primeira etapa de aproximação à terceira Assembléia Ecumênica
Européia, que se celebrará em terra ortodoxa, em Sibiu, em setembro deste ano.
Por ocasião das audiências das quartas-feiras, solicite receber as delegações da
Aliança Batista Mundial e da Evangelical Lutheran Church dos Estados Unidos, que
se mantêm fiéis às suas visitas periódicas a Roma. Também tive a oportunidade de
encontrar os herarcas da Igreja Ortodoxa da Geórgia, que acompanho com afeto,
continuando esse laço de amizade que unia Sua Santidade Ilia II com meu venerado
predecessor, o servo de Deus Papa João Paulo II.
Continuando com essa cronologia dos encontros ecumênicos do ano passado,
encontra-se a Reunião de chefes religiosos, celebrada em Moscou em julho de
2006. O patriarca de Moscou e de todas as Rússias, Aléxis II, solicitou com uma
mensagem especial, a adesão da Santa Sé. Depois foi útil a visita do metropolita
Kirill, do patriarcado de Moscou, que manifestou a intenção de chegar a uma
normalização mais explícita de nossas relações bilaterais.
Foi também apreciada a visita dos sacerdotes e dos estudantes do Colégio da «Diakonia
Apostólica» do Santo Sínodo da Igreja ortodoxa da Grécia. Quero recordar também
que em sua Assembléia Geral, em Porto Alegre, o Conselho Mundial das Igrejas
dedicou um amplo espaço à participação católica. Nessa ocasião enviei uma
mensagem particular.
Quis fazer chegar uma mensagem à reunião geral da Conferência Mundial Metodista
em Seul. Recordo também, com prazer, a cordial visita dos secretários da
Christian World Communions, organização de recíproca informação e contato entre
as diferentes confissões.
Continuando com a cronologia do ano 2006, chegamos à visita oficial do arcebispo
de Canterbury e primaz da Comunhão Anglicana, de novembro passado. Na capela «Redemptoris
Mater», do Palácio Apostólico, compartilhei com ele e com seu séqüito um
significativo momento de oração.
Pelo que se refere à inesquecível viagem apostólica à Turquia e ao encontro com
Sua Santidade Bartolomeu I, alegra-me recordar os numerosos gestos que foram
mais eloqüentes que as palavras. Aproveito a oportunidade para saudar mais uma
vez Sua Santidade Bartolomeu I e para agradecê-lo pela carta que me escreveu a
meu regresso a Roma; asseguro-lhe minha oração e meu compromisso de atuar para
que se tirem as conseqüências daquele abraço de paz que demos durante a Divina
Liturgia na igreja de São Jorge, no Fanar.
O ano concluiu com a visita oficial a Roma do arcebispo de Atenas e de toda a
Grécia, Sua Beatitude Christodoulos, em que trocamos presentes significativos:
os ícones da «Panaghia», a «Toda Santa», e a dos santos Pedro e Paulo abraçados.
Estes momentos não são, por acaso, de elevado valor espiritual, momentos de
alegria, de grande alcance nesta lenta subida rumo à unidade da qual falei?
Estes momentos iluminam o compromisso, com freqüência silencioso, mas intenso,
que nos une na busca da unidade. Nos alentam a fazer todo o esforço possível
para continuar nesta subida lenta, mas importante.
Recorramos à constante intercessão da Mãe de Deus e de nossos santos protetores,
para que nos apóiem e nos ajudem a não desfalecer nos bons propósitos, para que
nos alentem a intensificar todo esforço, rezando e trabalhando com confiança,
certos de que o Espírito Santo fará o resto. Ele nos dará a unidade completa
como e quando for de seu agrado. Fortalecidos por esta confiança, continuemos
adiante pelo caminho da fé, da esperança e da caridade. O Senhor nos guia.
[Traduzido por Zenit.
© Copyright 2006 - Libreria Editrice Vaticana]