O autêntico ecumenismo não se dá sem a conversão interior
Homilia de Bento XVI ao concluir a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos
Queridos irmãos e irmãs!
Neste dia, no qual se celebra a conversão do Apóstolo Paulo, concluímos,
reunidos em fraterna assembleia litúrgica, a anual Semana de oração pela unidade
dos cristãos. É significativo que a memória da conversão do Apóstolo das Nações
coincida com o último dia desta importante Semana, na qual com particular
intensidade pedimos a Deus o dom precioso da unidade entre todos os cristãos,
fazendo nossa a invocação que o próprio Jesus elevou ao Pai pelos seus
discípulos: "para que todos sejam um só. Como tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti,
para que assim eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu me enviaste" (Jo 17,
21). A aspiração de cada Comunidade cristã e de cada fiel à unidade e a força
para a realizar são um dom do Espírito Santo e caminham juntas com uma
fidelidade ao Evangelho cada vez mais profunda e radical (cf. Enc. Ut unum sint,
15). Damo-nos conta de que na base do compromisso ecuménico está a conversão do
coração, como afirma claramente o Concílio Vaticano II: "Não há verdadeiro
ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e
amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da
libérrima efusão da caridade" (Decr. Unitatis redintegratio, 7).
Deus caritas est (1 Jo 4, 8.16), Deus é amor. Sobre esta sólida rocha apoia-se a
inteira fé da Igreja. Em particular, baseia-se nela a paciente busca da plena
comunhão entre todos os discípulos de Cristo: ao fixar o olhar nesta verdade,
ápice da divina revelação, as divisões, embora mantendo a sua dolorosa
gravidade, parecem superáveis e não nos desencorajam. O Senhor Jesus, que com o
sangue da sua Paixão abateu o "muro da separação" da "inimizade" (Ef 2, 14), não
deixará de conceder a quantos o invocam com fé a força para cicatrizar todas as
dilacerações. Contudo, é preciso partir sempre deste ponto: Deus caritas est.
Quis dedicar a minha primeira Encíclica ao tema do amor, a qual foi publicada
precisamente hoje e esta feliz coincidência com a conclusão da Semana de oração
pela unidade dos cristãos convida-nos a considerar este nosso encontro, mas
também muito mais adiante, todo o caminho ecuménico na luz do amor de Deus, do
Amor que é Deus. Se já sob o perfil humano o amor se manifesta como uma força
invencível, o que devemos dizer nós que "conhecemos o amor que Deus nos tem,
pois cremos nele" (1 Jo 4, 16)? O verdadeiro amor não anula as legítimas
diferenças, mas harmoniza-as numa unidade superior, que não é imposta do
exterior, mas que do interior dá forma, por assim dizer, ao conjunto. É o
mistério da comunhão, que assim como une o homem e a mulher naquela comunidade
de amor e de vida que é o matrimónio, assim forma a Igreja qual comunidade de
amor, compondo em unidade uma multiforme riqueza de dons, de tradições. A Igreja
de Roma está ao serviço desta unidade de amor que, segundo a expressão de Santo
Inácio de Antioquia, "preside à caridade" (Ad Rom 1, 1). Diante de vós, queridos
irmãos e irmãs, desejo hoje renovar a entrega a Deus do meu peculiar ministério
petrino, invocando sobre ele a luz e a força do Espírito Santo, a fim de que
favoreça cada vez mais a fraterna comunhão entre todos os cristãos.
O tema do amor liga em profundidade as duas breves leituras bíblicas da hodierna
liturgia vespertina. Na primeira, a caridade divina é a força que transforma a
vida de Saulo de Tarso e faz dele o Apóstolo das Nações. Ao escrever aos
cristãos de Corinto, São Paulo confessa que a graça de Deus operou nele o
acontecimento extraordinário da conversão: "Pela graça de Deus, sou o que sou e
a graça que me foi concedida, não foi estéril" (1 Cor 15, 10). Por um lado,
sente que foi um obstáculo à difusão da mensagem de Cristo, mas ao mesmo tempo
vive na alegria de ter encontrado o Senhor ressuscitado e de ter sido iluminado
e transformado pela sua luz. Ele conserva uma constante memória daquele
acontecimento que mudou a sua existência, acontecimento tão importante para a
Igreja inteira que nos Actos dos Apóstolos a ele se faz referência três vezes
(cf. Act 9, 3-9; 22, 6-11; 26, 12-18). No caminho de Damasco, Saulo ouviu a
inquietante pergunta: "Porque me persegues?". Caindo ao chão e perturbado
interiormente, perguntou: "Quem és Tu, Senhor?", obtendo aquela resposta que
está na base da sua conversão: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues" (Act 9, 4-5).
Paulo compreendeu num instante o que teria expressado depois nos seus escritos,
que a Igreja forma um corpo único, do qual Cristo é a Cabeça. Assim de
perseguidor dos cristãos tornou-se o Apóstolo das Nações. No trecho evangélico
de Mateus, que ouvimos há pouco, o amor age como princípio que une os cristãos e
faz com que a sua oração unânime seja ouvida pelo Pai celeste. Jesus diz: "Se
dois de entre vós se unirem, na Terra, para pedir qualquer coisa, hão-de obtê-la
de meu Pai que está no céu" (Mt 18, 19). O verbo que o evangelista usa para "se
unirem" é synphonesosin: há a referencia a uma "sinfonia" dos corações. É isto
que atrai o coração de Deus. Por conseguinte, a sintonia na oração manifesta-se
importante para as finalidades do seu acolhimento por parte do Pai celeste.
Pedir juntos já assinala um passo rumo à unidade entre os que pedem. Isto
certamente não significa que a resposta de Deus seja de qualquer forma
determinada pelo nosso pedido. Sabemo-lo bem: a desejada consecução da unidade
depende em primeiro lugar da vontade de Deus, cujo desígnio e generosidade
superam a compreensão do homem e as suas expectativas pedidas e aguardadas.
Contando precisamente com a bondade divina, intensificamos a nossa oração comum
pela unidade, que é um meio necessário e eficaz como nunca, como recordou João
Paulo II na Enciclica Ut unum sint. "No caminho ecuménico para a unidade, a
primazia pertence, sem dúvida, à oração comum, à união orante daqueles que se
consagram à volta do próprio Cristo" (n. 22).
Analisando depois mais profundamente estes versículos evangélicos, compreendemos
melhor a razão pela qual o pai responderá positivamente ao pedido da comunidade
crista: "Pois diz Jesus onde dois ou três estiverem reunidos em Meu nome, Eu
estou no meio deles". É a presença de Cristo que torna eficaz a oração comum de
quantos estão reunidos no seu nome. Quando os cristãos se congregam para rezar,
o próprio Jesus está no meio deles. Eles são um com Aquele que é o único
mediador entre Deus e os homens. A Constituição sobre a Sagrada Liturgia do
Concilio Vaticano II refere-se precisamente a este trecho do Evangelho para
indicar uma das formas da presença de Cristo: "está presente, enfim, quando a
Igreja reza e canta, Ele que prometeu: "Onde estiverem dois ou tres reunidos em
meu nome, Eu estou no meio deles" (Mt 18, 20" (Sacrosanctum concilium, 7). Ao
comentar este texto do evangelista Mateus, São João Crisóstomo interroga-se:
"Pois bem, não existem dois ou três que se reúnem no seu nome?
Existem responde ele mas raramente" (Homilias sobre o Evangelho de Mateus, 60,
3). Esta tarde, sinto uma alegria imensa por ver uma assembleia tão numerosa em
oração, que implora de maneira "sinfónica" o dom da unidade. Dirijo a todos e a
cada um a minha cordial saudação. Saúdo com afecto particular os irmãos das
outras Igrejas e Comunidades eclesiais desta Cidade, unidos no único baptismo,
que nos torna membros do único Corpo místico de Cristo. Acabaram de transcorrer
40 anos desde quando, precisamente nesta Basílica, a 5 de Dezembro de 1965, o
Servo de Deus Paulo VI, de feliz memória, celebrou a primeira oração comum, na
conclusão do Concilio Vaticano II, com a solene presença dos Padres conciliares
e com a participação activa dos Observadores das outras Igrejas e Comunidades
eclesiais. Em seguida, o amado João Paulo II prosseguiu com perseverança a
tradição de concluir aqui a Semana de oração. Tenho a certeza de que esta tarde
os dois olham para nós do Céu e se unem à nossa oração.
Entre os que participam desta nossa assembleia desejaria saudar e agradecer de
modo especial o grupo dos delegados de Igrejas, de Conferencias Episcopais, de
Comunidades cristas e de órgãos ecuménicos que iniciam a preparação da Terceira
Assembleia Ecuménica Europeia, programada para Sebiu, na Roménia, em Setembro de
2007, sobre o tema: "A luz de Cristo a todos ilumina. Esperança de renovação e
unidade na Europa". Sim, queridos irmãos e irmãs, nós cristãos temos a tarefa de
ser, na Europa e entre todos os povos, "luz do mundo" (Mt 5, 14). Queira Deus
conceder que alcancemos depressa a desejada plena comunhão. A recomposição da
nossa unidade dará maior eficiência à evangelização. A unidade é a nossa missão
comum; é a condição para que a luz de Cristo se difunda mais eficazmente em
todas as partes do mundo e os homens se convertam e sejam salvos. Quanto caminho
temos à nossa frente! Mas não percamos a confiança, aliás retomemos o caminho
juntos com mais entusiasmo. Cristo precede-nos e acompanha-nos. Nós prosseguimos
atrás da sua presença indefectível; d'Ele imploramos humilde e incansavelmente o
precioso dom da unidade e da paz.
[Tradução distribuída pela Santa Sé]