PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A CULTURA PONTIFÍCIO
CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
INTERVENÇÃO DO CARDEAL PAUL POUPARD NA APRESENTAÇÃO DE UM DOCUMENTO SOBRE A "NEW
AGE"
3 de Fevereiro de 2003
1. Da New Age
(Nova Era) já se falou muito e continuar-se-á a falar. Quanto a mim, pedi a um
especialista, Jean Vernette, que fizesse uma análise dos Movimentos da New Age
para a terceira edição do meu Grande Dizionario delle Religioni (Grande
Dicionário das Religiões), que os descreve com os seguintes termos: "Os
Movimentos da New Age, como um grande rio fluente, com múltiplos afluentes,
representam uma forma típica de sensibilidade religiosa contemporânea, como uma
nova religiosidade que reveste muitos caracteres da Gnose eterna" (Piemme, 2000,
pp. 1497-1498). Além disso, à New Age foram dedicados recentemente dois números
especiais da Revista trimestral de cultura religiosa, intitulada Religioni e
sette nel mondo [Religiões e seitas no mundo] (1996, nn. 1-2). No meu editorial,
apresentei este fenómeno recorrendo às seguintes expressões: "O fenómeno da New
Age, juntamente com muitos outros Movimentos religiosos, constitui um dos
desafios mais urgentes para a fé cristã. Trata-se de um desafio religioso e, ao
mesmo tempo, cultural: a New Age propõe teorias e doutrinas sobre Deus, o homem
e o mundo, que são incompatíveis com a fé cristã. Além disso, a New Age é o
sintoma de uma cultura em profunda crise e, ao mesmo tempo, uma resposta errónea
a esta situação de crise cultural: às suas inquietações e interrogações, às suas
aspirações e esperanças" (Religioni e sette nel mondo, 6 [1996], pág. 7).
Hoje, juntamente com Sua Ex.cia Rev.ma D. Michael Louis Fitzgerald, Presidente
do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, tenho a honra de
apresentar um Documento sobre este fenómeno, elaborado pelo Rev.do Pe. Peter
Fleetwood, ex-Oficial do Pontifício Conselho para a Cultura, e pela Dra. Teresa
Osório Gonçalves, do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso.
Portanto, trata-se do fruto de uma autêntica e longa colaboração
interdicasterial, precisamente com vista a ajudar a responder "com docilidade e
respeito", como já recomendava o Apóstolo Pedro (1 Pd 3, 15), a este desafio
religioso e, ao mesmo tempo, cultural.
2. Hoje a cultura ocidental, actualmente seguida de muitas outras culturas, está
a ser atravessada por um sentido da presença de Deus, quase instintivo àquilo
que muitas vezes se chama visão mais "científica" da realidade. Tudo deve ser
explicado segundo os termos das nossas experiências quotidianas. Qualquer coisa
que faça pensar nos milagres, torna-se imediatamente um motivo de suspeita.
Assim, todos os gestos e os objectos simbólicos, conhecidos como sacramentais,
outrora parte da práxis religiosa quotidiana de todo o católico, hoje são, no
panorama religioso, muito menos evidentes do que antes.
3. Os motivos desta transformação são numerosos e diversos, mas todos fazem
parte daquela passagem cultural geral das formas tradicionais de religião a
expressões mais pessoais e individuais, daquilo que agora se define como
"espiritualidade". Ao que parece, na origem desta transformação existem três
motivos diferentes. O primeiro consiste na sensação de que as religiões
tradicionais ou institucionais não podem dar aquilo que outrora se afirmava que
podiam oferecer. Na sua visão do mundo, algumas pessoas não conseguem nem sequer
encontrar espaço para acreditar num Deus transcendente pessoal, e a experiência
pessoal de muitos indivíduos levou-os a perguntar se este Deus tem o poder de
realizar transformações neste mundo, ou até mesmo se Ele existe. As experiências
negativas que investiram o mundo inteiro fizeram com que algumas pessoas se
tornassem muito cínicas no que diz respeito à religião: penso em acontecimentos
terríveis, como no Holocausto e nas consequências da bomba atómica, lançada
sobre Hiroxima e Nagasáqui, no final da segunda guerra mundial. Dei-me conta
disto pessoalmente, durante a minha recente viagem a Nagasáqui, quando tive o
privilégio de rezar, mas senti-me totalmente incapaz de encontrar palavras,
diante do monumento à memória daquelas pessoas cujas vidas foram aniquiladas ou
comprometidas para sempre, naquele mês de Agosto de 1945. Hoje, a ameaça de uma
guerra no Médio Oriente traz-me à mente as recordações do meu pai, socorrista
durante a segunda guerra mundial. Aquilo que ele me contava sobre os horrores da
guerra faz-me compreender mais facilmente as dúvidas das pessoas acerca da
existência de Deus e da religião. A confusão de muitos indivíduos diante do
sofrimento dos inocentes, explorada também por determinados Movimentos, explica
em parte a fuga de alguns crentes para as fileiras dos mesmos.
4. Há outro motivo para explicar uma certa inquietude e uma determinada rejeição
da Igreja tradicional. Não devemos esquecer que na antiga Europa as religiões
pagãs pré-cristãs eram muito fortes e, com frequência, havia conflitos
indecorosos, ligados à mudança política, mas inevitavelmente tachados de
opressão cristã das antigas religiões. Um dos mais significativos
desenvolvimentos naquele que se poderia definir como o campo "espiritual" no
século passado, em maior ou menor medida, foi o retorno às formas pré-cristãs de
religião. As religiões pagãs desempenharam um papel notável na defesa de algumas
das mais violentas ideologias racistas da Europa, revigorando desta maneira a
convicção segundo a qual certas nações têm um papel histórico de alcance
mundial, a ponto de terem o direito de submeter outros povos, e isto comportou
quase inevitavelmente um ódio pela religião cristã, considerada como
recém-chegada ao cenário religioso. A complexa série de fenómenos, conhecidos
com o termo de religiões "neopagãs", revela a necessidade, sentida por algumas
pessoas, de inventar novos modos de "contra-atacar" o cristianismo e voltar a
uma forma mais autêntica de religião, mais intimamente ligada à natureza e à
terra. Por isso, deve reconhecer-se que não há lugar para o cristianismo na
religião neopagã. Quer se queira, quer não, verifica-se uma luta para conquistar
as mentes e os corações das pessoas na relação entre o cristianismo, as antigas
religiões pré-cristãs e as suas "primas" de desenvolvimento mais recente.
5. O terceiro motivo, na origem de uma decepção bastante difundida no que se
refere à religião institucional, deriva de uma crescente obsessão na cultura
ocidental, pelas religiões orientais e os caminhos da sabedoria. Quando se
tornou mais fácil viajar fora do seu próprio território, os europeus
aventureiros começaram a explorar lugares que antes conheciam somente através
das páginas de antigos textos. O fascínio do exótico colocou-os numa relação
mais estreita com as religiões e as práticas esotéricas de várias culturas
orientais, do Antigo Egipto à Índia e ao Tibete. A convicção crescente de que
existe uma certa verdade de base, um núcleo de verdade no coração de toda a
experiência religiosa, levou à ideia de que se podem e se devem acolher os
elementos característicos das diversas religiões para chegar a uma forma
universal de religião. Uma vez mais, neste empreendimento há pouco espaço para
as religiões institucionalizadas, em particular o hebraísmo e o cristianismo.
Vale a pena recordá-lo, na próxima vez que tiverdes a ocasião de observar um
anúncio publicitário relativo ao budismo tibetano ou a qualquer tipo de encontro
com um xamanista, coisas estas que podereis observar em qualquer capital
europeia. O que me preocupa é o facto de que muitas pessoas, comprometidas em
tais géneros de espiritualidade oriental ou "indígena", não estão completamente
conscientes do que se oculta por detrás do convite inicial para participar
nestes encontros. Além disso, é digno de nota o facto de que, desde há muito
tempo, existe muito interesse pelas religiões esotéricas nalguns círculos
maçónicos que visam uma religião universal. O Iluminismo promovia a ideia
segundo a qual era inaceitável que existissem tantos conflitos e se fizessem
tantas guerras em nome da religião. Não posso senão estar de acordo com isto.
Porém, seria desonesto deixar de reconhecer uma difundida atitude anti-religiosa
que se desenvolveu a partir da originária preocupação de garantir o bem-estar à
humanidade. Também neste caso, considera-se com frequência como um conflito
religioso aquele que, na realidade, não é senão um embate de natureza política,
económica ou social.
6. O espírito desta nova religião universal é explicado mais claramente, de
maneira muito popular, no "musical" Hair (1960) quando, ao público do mundo
inteiro, se disse que "esta é a aurora da Era do Aquário", uma Era fundamentada
sobre a harmonia, a compreensão e o amor. Em termos astrológicos, a Era dos
Peixes foi identificada com o período em que o cristianismo teria predominado,
mas esta Era, ao que parece, deveria terminar depressa, para dar lugar à Era do
Aquário, quando o cristianismo perderia a sua influência, abrindo caminho para
uma religião universal mais humana. Uma boa parte da moral tradicional deixaria
de ter lugar na nova Era do Aquário. O modo de pensar das pessoas seria
transformado completamente e já não existiriam as antigas divisões entre homens
e mulheres. Os seres humanos deveriam ser sistematicamente chamados a assumir
uma forma de vida andrógina, em que ambos os hemisférios do cérebro são
oportunamente utilizados de forma harmónica, e não divididos, como agora.
7. Quando vemos e ouvimos a expressão New Age, é importante recordar que,
originariamente, ela se referia à Nova Era do Aquário. O Documento que hoje vos
é apresentado constitui uma resposta à necessidade sentida pelos Bispos e pelos
fiéis em diversas regiões do mundo. Foram eles que pediram muitas vezes ajuda
para responder melhor a este fenómeno, hoje omnipresente. O próprio título deste
Documento esclarece, desde o começo, que o Aquário nunca poderá dar aquilo que
Jesus Cristo pode oferecer. O encontro entre Jesus Cristo e a samaritana, no
poço de Sicar, narrado pelo Evangelho de João, é o texto-chave que orientou a
reflexão durante a preparação do relatório provisório sobre a New Age, que agora
vos é apresentado. Como se pode ver, o Documento não está de modo algum
destinado a ser uma declaração definitiva sobre este tema. Trata-se de uma
reflexão pastoral, destinada a ajudar os Bispos, catequistas e quantos estão
comprometidos nos vários programas de formação da Igreja, com vista a
identificar as origens da New Age, para ver de que forma ela consegue
influenciar a vida dos cristãos, e para elaborar meios e métodos capazes de
enfrentar os numerosos e diversos desafios que a New Age está a lançar à
comunidade cristã, nas regiões do mundo onde se encontra presente. Pode
tratar-se também de um desafio para os que se sentem cristãos, tentados por
aquilo que a New Age afirma a propósito de Jesus Cristo, para reconhecer as
inúmeras diferenças entre o Cristo cósmico e o Cristo histórico. Em última
análise, este Documento é um ulterior fruto da atenção da Igreja pelo mundo. Ele
nasce do dever que a Igreja tem de permanecer fiel à Boa Nova da vida, da morte
e da ressurreição de Jesus Cristo, que oferece verdadeiramente a água da vida a
todos aqueles que se aproximam dele com a mente e o coração abertos.
8. A natureza e o alcance do Documento serão melhor entendidos, se eu vos
explicar de que maneira ele foi escrito. Existe uma Comissão interdicasterial de
estudo que se ocupa de seitas e de novos movimentos religiosos. Fazem parte
desta Comissão os Secretários dos Pontifícios Conselhos para a Cultura, para o
Diálogo Inter-Religioso e para a Promoção da Unidade dos Cristãos, bem como da
Congregação para a Evangelização dos Povos. Para preparar este Documento, os
Oficiais dos quatro mencionados Dicastérios do Vaticano, encarregados da
redacção do texto, foram coadjuvados por um Oficial da Congregação para a
Doutrina da Fé.
Assim, é claro que a Santa Sé viu neste trabalho um importante projecto a
realizar correcta a cuidadosamente. Foi necessário um longo período de tempo,
antes que o Documento fosse divulgado. Todavia, faço votos a fim de que ele
suscite reflexões entre os Bispos e nas comunidades católicas e cristãs de todos
os tipos. Se ele for substituído por um texto melhor e de índole mais
definitiva, significará que alcançou a sua finalidade, estimulando quantos estão
comprometidos na pastoral e as pessoas que trabalham com eles, a reflectir sobre
este tema de maneira teológica.
9. O Documento quer encorajar os seus leitores a fazerem o melhor que puderem
para entender correctamente o fenómeno da New Age. E isto exige uma atitude
aberta... Contudo, gostaria de dizer que poderiam verificar-se queixas da parte
de cristãos que, ao lerem este Documento, observarem que algumas formas actuais
de espiritualidade, em que estão comprometidos, são objecto de crítica por parte
do Documento. Já é problemático o próprio facto de recorrer ao uso do termo New
Age para definir este fenómeno. Por isso, alguns preferem utilizar o termo New
Age mas, falando sinceramente, na minha opinião trata-se apenas de um
afastamento do problema, do ocultamento do mesmo com o nevoeiro terminológico. O
facto de que o termo inclui muitas coisas indica também que nem todos aqueles
que adquirem produtos da New Age ou afirmam que obtêm algum lucro de uma terapia
da New Age abraçaram efectivamente a New Age. Por conseguinte, é necessário um
certo discernimento, tanto no que se refere aos produtos com a etiqueta da New
Age, como no que diz respeito àqueles que, em maior ou menor medida, poderiam
ser considerados "clientes" da New Age. Clientes, devotos e discípulos não são a
mesma coisa. Honestidade e integridade exigem que sejamos muito prudentes e que
não generalizemos, julgando com muita facilidade.
10. Como conclusão, gostaria de dizer simplesmente que a New Age se apresenta
como uma falsa utopia para responder à profunda sede de felicidade do coração
humano, à mercê da dramaticidade da existência e insatisfeito com a profunda
imperfeição da felicidade moderna. A New Age apresenta-se como uma resposta
enganadora à esperança mais antiga do homem, a esperança de uma Nova Era de paz,
de harmonia e de reconciliação consigo mesmo, com os outros e com a natureza.
Esta esperança religiosa, tão antiga como a própria humanidade, constitui um
apelo que brota do coração dos homens, especialmente em tempos de crise. O breve
Documento agora apresentado ajudará a compreender melhor este fenómeno, a
discernir entre as propostas existentes e a suscitar na comunidade cristã um
renovado compromisso a anunciar Jesus Cristo, Portador da Água Viva.
Estou impaciente por seguir o debate que, sem dúvida, o nosso Documento
suscitatá, enquanto agradeço sinceramente a todo o grupo de especialistas, de
modo particular ao Pe. Peter Fleetwood e à Dra. Teresa Osório Gonçalves, que
trabalharam com energia e afã para o poderem redigir.