Mensagem vaticana aos muçulmanos por ocasião do Ramadão - 2005


«Continuando pela senda do diálogo»

Queridos amigos:

1. Por ocasião da festa anual do «Id al-Fitr» ao final do mês do Ramadã, desejo dirigir a todos vós, ali onde vos encontrais, meus melhores auspícios de uma festividade gozosa.

2. Para o Conselho Pontifício para o Diálogo Inter-religioso, converteu-se em uma tradição enviar uma mensagem a nossos irmãos e irmãs muçulmanos por ocasião do final do Ramadã. Normalmente firma a mensagem o presidente do Conselho Pontifício. Em 1991, por ocasião da primeira Guerra do Golfo, a mensagem de amizade foi firmada por Sua Santidade o Papa João Paulo II. Afirmou a necessidade de «um diálogo sincero, profundo e constante entre crentes católicos e crentes muçulmanos», do qual possa surgir um maior conhecimento e confiança recíproca». Certamente estas palavras continuam sendo atuais.

3. Em 2 de abril deste ano, o Papa João Paulo II concluiu sua existência terrena. Muitos muçulmanos de todas as partes do mundo seguiram de perto, com os católicos e os demais cristãos, as notícias sobre a última enfermidade e morte do Papa, e delegações oficiais de muçulmanos, chefes religiosos e políticos provenientes de muitos países, participaram de seu funeral na Praça de São Pedro. Muitos apreciaram profundamente os esforços constantes do Papa em favor da paz: Um jornalista muçulmano, que havia tido a oportunidade de encontrar-se pessoalmente com o Papa, escreveu: «Não exagero quando digo que a morte do Papa João Paulo II foi uma grande perda para a Igreja católica, para os cristãos em geral e, em particular para as relações islâmico-cristãs. Só se pode compensar esta perda seguindo suas marcas e continuando pelo caminho que traçou com fé e valentia em Assis, em 1986. Assis, onde descansam os restos de São Francisco, pioneiro entre os católicos do diálogo islâmico-cristão».

4. A fé em Deus e a confiança na humanidade levavam o falecido Papa a comprometer-se no diálogo --sempre se aproximava dos irmãos e das irmãs de todas as religiões com respeito e com o desejo de colaborar, tal e como pediu fazê-lo o Concílio Vaticano II na declaração «Nostra Aetate», cujo quadragésimo aniversário se celebra este ano. Seu compromisso, neste sentido, estava verdadeiramente arraigado no Evangelho, seguindo o exemplo do Senhor Jesus Cristo, que manifestava seu amor e seu respeito por toda pessoa, inclusive por quem não pertencia a seu povoado.

5. Seguindo o ensinamento do Concílio Vaticano II e continuando com o caminho empreendido pelo Papa João Paulo II, Sua Santidade Bento XVI, ao receber os representantes de outras religiões que haviam participado da celebração do início de seu pontificado, afirmou: «Agradeço em particular a presença entre nós dos membros da comunidade muçulmana e expresso meu apreço pelo progresso do diálogo entre muçulmanos e cristãos, tanto local como internacionalmente. Asseguro-vos que a Igreja quer seguir construindo pontes de amizade com os seguidores de todas as religiões, para buscar o verdadeiro bem de cada pessoa e da sociedade inteira».

Depois, fazendo referência aos conflitos, à violência e às guerras presentes no mundo, o Papa sublinhou que cada um tem o dever, especialmente os que reconhecem pertencer a tradições religiosas, de trabalhar pela paz, e que «nossos esforços para encontrar-nos e fomentar o diálogo são uma valiosa contribuição para construir a paz sobre fundamentos sólidos». O Papa Bento XVI concluiu dizendo: «Portanto, é necessário estabelecer um diálogo autêntico e sincero, construído sobre o respeito à dignidade de toda pessoa humana, criada, como os cristãos cremos firmemente, à imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1, 26-27)» (cf. 25 de abril de 2005).

6. Alentados por estas palavras do Papa, corresponde-nos reforçar nosso empenho para contribuir boas relações entre as pessoas de diferentes religiões, promover o diálogo cultural e trabalhar juntos por uma maior justiça e uma paz duradoura. Demonstremos, como cristãos e muçulmanos, que podemos viver juntos em uma sincera fraternidade, tentando cumprir sempre a vontade de Deus misericordioso que criou a humanidade para que fosse uma só família.

Uma vez mais vos expresso meus mais fervorosos augúrios.

Arcebispo Michael L. Fitzgerald
Presidente

[Traduzido por Zenit]