Mensagem do Papa ao encontro «Homens e religiões»
Ao venerado irmão
Cardeal Walter Kasper
Presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos
1. É-me particularmente grato fazer chegar minha saudação e meu cordial apreço,
por seu intermédio, queridíssimo irmão, a todos os representantes das igrejas e
comunidades eclesiais e das grandes religiões mundiais, reunidas em Milão com
motivo do XVIII encontro que leva por título «Religiões e culturas: a valentia
de um novo humanismo». Para mim é motivo de grande alegria e consolo ver como a
peregrinação de paz que eu mesmo comecei em Assis, em outubro de 1986, não se
deteve, mas que continua e cresce seja em número de participantes, seja em seus
frutos.
Sinto-me igualmente contente de poder saudar a amada Igreja ambrosiana que, com
seu arcebispo, o cardeal Dionigi Tettamanzi, acolhe outra vez com generosidade
este providencial encontro. Agradeço também a Comunidade de Santo Egídio, que
compreendeu a importância do que chamei «espírito de Assis» e que, desde 1896,
segue propondo-o com audácia e perseverança, alimentando o compromisso em um
caminho tão necessário para nosso mundo, marcado por profundas incompreensões e
graves conflitos.
2. Em 1993, os líderes religiosos, reunidos pela primeira vez em Milão por
ocasião do sétimo encontro «Homens e religiões», lançavam um chamado ao mundo:
«Que nenhum ódio nem nenhum conflito, que nenhuma guerra encontre um incentivo
nas religiões. A guerra não pode ser motivada pelas religiões. Que as palavras
das religiões sejam sempre palavras de paz! Que o caminho da fé abra ao diálogo
e à compreensão! Que as religiões guiem os corações na pacificação da terra!».
Nos anos passados, muitos receberam este chamado e se puseram ao serviço da paz
e do diálogo nos mais variados países. Com freqüência, o espírito do diálogo e
da compreensão guiou caminhos de reconciliação. Infelizmente, brotaram novos
conflitos, e mais, difundiu-se uma mentalidade pela qual o conflito entre muitos
religiosos e civilizações é considerado quase como um inevitável legado da
história.
Não é assim! A paz é sempre possível! Há que cooperar sempre para erradicar da
cultura e da vida as sementes de amargura e incompreensão, da mesma forma que a
vontade de prevalecer sobre o outro, a arrogância do próprio interesse e o
desprezo da identidade alheia. O conflito nunca é inevitável! E as religiões têm
uma tarefa particular na hora de recordar a todos os homens e mulheres esta
convicção que, ao mesmo tempo, é dom de Deus e fruto da experiência histórica de
muitos séculos. Isto é o que chamei «o espírito de Assis». Nosso mundo tem
necessidade deste espírito. Tem necessidade de que brotem deste espírito
convicções e comportamentos que façam sólida a paz, reforçando as instituições
internacionais e promovendo a reconciliação. O «espírito de Assis» alenta as
religiões a oferecerem sua contribuição a esse novo humanismo do qual o mundo
contemporâneo tem tanta necessidade.
3. Em particular, o caminho que começa em Assis, em 1986, e que continua com a
participação comprometida de tantos líderes religiosos encontra alimento e
impulso no «laço intrínseco que une uma autêntica atitude religiosa com o grande
bem da paz» (Assis, 1986, «Discurso conclusivo»). Em Assis, antes de 1986 e
depois de 2002, quis sublinhar este precioso laço que considero fundamental no
caminho que se empreendeu então. De fato, como escrevi na mensagem ao encontro
de Lovaina, Bruxelas, «a oração feita ombro a ombro, ainda que não cancele as
diferenças, manifesta um laço profundo que faz de todos nós humildes buscadores
desta paz que só Deus pode dar» (10 de setembro de 1992).
O mundo tem necessidade de paz. Todos os dias chegam notícias de violência, de
atentados terroristas, de operações militares. O mundo está perdendo a esperança
de alcançar a paz? Às vezes dá a impressão de que se dá um progressivo costume
ao uso da violência e ao derramamento de sangue inocente. Ante estes dados
preocupantes, inclino-me às Escrituras e encontro as palavras consoladoras de
Jesus «Minha paz vos dou, minha paz vos dou. Não vos dou a paz como a do mundo.
Não se perturbe vosso coração nem se acovarde» (João 14, 27). São palavras que
nos infundem esperança, os cristãos que cremos n’Ele, «nossa paz» (Efésios 2,
14). Quero dirigir-me a todos para pedir que não cedam à lógica da violência, da
vingança e do ódio, e mais, que perseverem no diálogo. É necessário romper essa
cadeia mortal que aprisiona e sangra muitos rincões do planeta. Os crentes de
todas as religiões podem fazer muito neste sentido. A imagem de paz que surge do
encontro de Milão alenta muitos no caminho da paz.
4. Em alguns dias, recordaremos aquele terrível 11 de setembro de 2001, que
levou a morte ao coração dos Estados Unidos. Passaram já três anos desde aquele
dia. Infelizmente, o terrorismo parece que aumenta sua ameaça de destruição. Não
cabe a menor dúvida de que se necessita firmeza e decisão para combater os
agentes da morte. Ao mesmo tempo, contudo, é necessário comprometer-se com todos
os meios para desarraigar tudo o que favorece a afirmação do terror. Em
particular, a miséria, o desespero e o vazio dos corações. Não temos de
deixar-nos vencer pelo medo que leva a encerrar-se em si mesmo e a reforçar o
egoísmo dos indivíduos e dos grupos. Necessita-se do valor de globalizar a
solidariedade e a paz. Penso em particular na África, «continente que parece
encarar o desequilíbrio que existe entre o norte e o sul do planeta» (mensagem
por ocasião do XVI Encontro «Homens e religiões»: Palermo, 29 de agosto de 2002)
e no centro de minhas preocupações está o querido povo iraquiano, pelo qual
imploro a Deus cada dia esta paz que os homens não sabem se dar.
O encontro de Milão mostra a necessidade de empreender com decisão o autêntico
caminho da paz, que nunca passa pela violência e sempre pelo diálogo. É bem
sabido, sabe em particular quem procede de terras ensangüentadas por conflitos,
que a violência sempre gera violência. A guerra abre de par em par as portas do
abismo do mal. Com a guerra tudo se faz possível, inclusive o que não tem a
mínima lógica. Por este motivo, a guerra deve ser considerada sempre como um
fracasso: um fracasso da razão e da humanidade. Que surja o quanto antes, então,
um impulso espiritual e cultural que leve os homens a desterrar a guerra. Sim,
nunca mais a guerra! Estava convencido naquele outubro de 1986 em Assis, quando
pedi aos que pertenciam a todas as religiões que se reunissem uns ao lado dos
outros para invocar de Deus a paz. Estou mais convencido ainda hoje: enquanto
diminuem as forças do corpo, sinto ainda mais viva a força da oração.
5. Por isso, é significativo que a Comunidade de Santo Egídio tenha escolhido
para o encontro deste ano o título mencionado: «Religiões e culturas: a valentia
de um novo humanismo». Esta mesma maneira de encontrar-se gera um humanismo, ou
seja, uma nova maneira de ver-se mutuamente, de compreender-se, de conceber o
mundo e de trabalhar pela paz. No encontro participam pessoas capazes de estar
umas junto às outras, encontrando essa amizade que permite experimentar a
elevada dignidade de todo homem e a riqueza que com freqüência se encontra na
diversidade.
Castel Gandolfo, 3 de setembro de 2004
IOANNES PAULUS II
[Tradução do original italiano realizada por Zenit]