Intervenção da Santa Sé sobre a recordação do Holocausto




Senhor presidente:

Recordar é um dever e uma responsabilidade comum. Isto é algo particularmente verdadeiro no caso do Holocausto, por este motivo minha delegação apóia com satisfação a resolução sobre a memória do Holocausto e felicita quem a patrocinou.

A responsabilidade de todas as nações de recordar cobra nova força quando celebramos o sexagésimo aniversário da libertação dos campos de extermínio e o estabelecimento das Nações Unidas.

Durante sessenta anos tivemos ante nós o horror deste crime. Uma convenção internacional sobre o tema não impediu esse tipo de pensamento que leva ao genocídio, à violência que perpetra o genocídio, às injustiças que o fazem possível, ou aos interesses que permitem que um genocídio seja mantido no tempo. O século XX foi testemunha de genocídios, atrocidades, assassinatos de massas e limpezas étnicas que infelizmente não ficaram confinados em um continente. Ante o Holocausto, só podemos recordar e comprometer nossos melhores esforços comuns para assegurar, depois de ter dado um nome a este crime, que as nações do mundo sejam capazes de reconhecê-lo como é e de preveni-lo no futuro.

Que o Holocausto sirva de alerta para que não deixemos nascer ideologias que justificam o desprezo da dignidade humana em virtude da raça, a cor, o idioma ou a religião.

Neste contexto, seria bom também recordar e renovar nosso apoio à resolução 1624 do Conselho de Segurança, que condenou «nos termos mais enérgicos todos os atos de terrorismo» e repudiou «os intentos de justificação ou glorificação (apologia) de atos de terrorismo que possam incitar novos atos de terrorismo». Pediu, também, que «prossigam os esforços internacionais encaminhados a promover o diálogo e melhorar o entendimento entre as civilizações, em um intento por prevenir que se atente indiscriminadamente contra diferentes religiões e culturas, e adotem todas as medidas que sejam necessárias e adequadas e conformes às obrigações que lhes incumbem em virtude do direito internacional».

Depois da Shoah, o primeiro passo da prevenção foi a Declaração Universal dos Direitos Humanos. São necessários outros muitos passos mais. Em cada país, a memória do Holocausto tem de ser preservada como um compromisso para economizar às futuras gerações este horror.

Em sua visita à Terra Santa, o Papa João Paulo II deteve-se no memorial de Yad Vashem dedicado à Shoah. Aos pés do Muro das Lamentações rezou pelo perdão e a conversão dos corações e das mentes.

Pedir perdão purifica a memória e recordar o Holocausto oferece-nos uma oportunidade para que aconteça esta purificação da memória, para detectar os primeiros sintomas de um genocídio e rejeitá-los, e para tomar a tempo medidas firmes para superar as injustiças sociais e internacionais de todo tipo.

O programa de alcance, assim como outras medidas, deverão ser úteis neste sentido para mostrar que, com vontade política, pode-se fazer mais e se pode conseguir mais.

A Santa Sé está disposta a trabalhar neste sentido.

Obrigado, senhor presidente.

[Traduzido por Zenit]