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PAPA BENTO XVI - HOMILIA SOBRE SANTA CECÍLIA
Cantai ao
Senhor um cântico novo! (Sal 149, 1) - este convite percorre todo o livro
dos Salmos, e bem poderíamos dizer que esse grande livro de cânticos do Povo
de Deus nasceu como resposta a esse chamado.
Há nessa frase dois aspectos importantes. O primeiro é que os homens devem
cantar para o Senhor. Se o fizermos, começaremos a cantar.
Mas quando é que um homem canta? Como chegaram os homens não apenas a falar,
mas a cantar?
O homem canta, poderíamos responder, quando experimenta uma grande alegria.
Canta quando tem de exprimir alguma coisa que não pode ser expressa pelo
curso normal das palavras. Precisa então de uma nova dimensão da fala, da
comunicação, que não renuncia à razão, mas a ultrapassa e abre novas
possibilidades de percepção.
O homem canta quando quer comunicar alegria. Canta quando o amor quer
manifestar-se, tornar-se audível: Cantare amantis est, diz Santo Agostinho.
O amor, o ser amado e o poder amar são essa grande alegria que abre para o
homem esse novo modo de expressão. O convite a "cantar ao Senhor um cântico
novo" diz-nos, portanto, que devemos deixar-nos tocar pela proximidade de
Deus, deixar que na nossa alma se manifeste a presença do seu Amor.
Deíxemo-nos cumular pela alegria de Deus, que se revela a cada um de nós,
que nos criou e nunca nos abandona.
Um cântico sempre renovado
Acrescentemos agora o segundo aspecto deste convite a "cantar ao Senhor um
cântico novo", sempre renovado: o louvor a Deus nunca deve cessar. No antigo
Israel, era sobretudo a memória da salvação das mãos dos egípcios através do
Mar Vermelho que despertava uma e outra vez esse cantar a Deus. Com efeito,
o relato da travessia do mar termina com um cântico, o primeiro da história
de Israel: Então Moisés e os filhos dos israelitas entoaram em honra do
Senhor o seguinte cântico: "Cantarei ao Senhor, porque ele manifestou a sua
glória. [...] O Senhor é a minha força e o objeto do meu cântico; foi ele
quem me salvou. Ele é o meu Deus - eu o celebrarei; o Deus de meu pai - eu o
exaltarei (cfr. Ex 15, 1-18). Depois de acontecimentos como os que os
israelitas acabavam de presenciar, tinha de vir necessariamente uma explosão
de alegria, de uma alegria a que não podiam bastar os modos comuns de
expressão. Assim nasceu o cântico, o cantar a Deus...
O tema da salvação através do Mar Vermelho perpassa todo o conjunto dos
Salmos, alegrando sempre de novo os homens de Deus e inspirando os seus
cânticos. Mas no saltério aparece principalmente Davi como o novo e
autêntico fundador da música cultual, em que vozes e instrumentos de todo o
tipo soam em uníssono. Ao mesmo tempo, a história do Povo eleito manifesta
que Deus atua sempre, que não é um Deus do passado; por isso, sempre há
motivos renovados para enaltecê-lo, e é preciso continuar o canto em seu
louvor. Assim aparece o salmo votivo: Os nossos pais puseram a sua confiança
em vós, esperaram em vós e os livrastes. A vós clamaram e foram salvos.
[...] Então anunciarei o vosso nome aos meus irmãos, e vos louvarei no meio
da assembléia (cfr. Sal 22, 5-6. 26). Não são poucos os salmos que nasceram
deste tipo de promessas e das experiências a elas associadas.
"Cantai ao Senhor um cântico novo" significa que o homem deve acordar para a
presença de Deus, para o seu agir aqui e agora, e deve tornar visível aos
outros homens, por meio do seu cântico, o raio de luz divina que o atingiu.
O cântico novo é necessário para que a verdade sobre Deus e o homem se
desvele pouco a pouco. É necessário porque só à luz das experiências sempre
renovadas que se exprimem no cântico e assim se tornam acessíveis aos
outros, é só à luz dessas experiências que poderemos suportar as aflições
deste mundo, ganhar esperança e permanecer no amor.
O cântico da nova Aliança
Por trás da idéia de um cântico novo que ultrapassava Moisés e,
ultrapassando também Davi, tinha de avançar sempre, ocultava-se uma
silenciosa esperança: a de que um dia viesse a haver o totalmente novo, o
inteiramente outro, graças ao qual todos os cânticos anteriores ganhariam a
sua plenitude musical. E então, na noite anterior a sua Paixão, Jesus
realizou aquilo que era inimaginável, mas correspondia ao que todos os
homens esperavam e continuam a esperar no mais fundo do seu ser. O Senhor
anunciou uma nova Aliança no seu sangue e, antecipando a sua morte na cruz,
estabeleceu-a. A antiga Aliança de Moisés não passava de uma grandiosa
preparação, que agora chegava ao seu fim, para essa nova Aliança em Cristo.
Agora se dava o verdadeiramente novo - a salvação divina que vale para todos
os homens e abrange todos os tempos, porque vem da eternidade e se dirige
para a eternidade. Agora o amor de Deus rompia todos os limites e criava a
grande Novidade, que nunca se poderá superar e que nunca terminaremos de
cantar. Assim como não podemos esgotar o mar, nunca esgotaremos o tesouro
dos cânticos novos trazidos por essa Novidade, que no fundo são o único e
verdadeiro cântico novo.
Desde então, os dois temas - o da nova Aliança e o do cântico novo - estão
unidos. Já na primeira geração cristã começaram a surgir, com essa íntima
necessidade nascida da grandiosa e nova experiência do amor divino que
Cristo significa para o homem, novos cânticos que completavam e continuavam
o saltério. Eram hinos cristãos, alguns dos quais nos foram conservados nas
Epístolas do Novo Testamento e no Apocalipse de São João - infelizmente
apenas os textos, porque as melodias se perderam.
Mas a simples composição de novos textos e de novas melodias já não bastava.
A Novidade de que falamos tinha de penetrar mais fundo: devia consistir numa
renovação dos corações, em corações novos, como já o tinha anunciado o
profeta Ezequiel: Tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um
coração de carne (Ez 36, 26). Para que o cântico fosse novo, também devia
ser novo o coração. A nova Aliança exigia um homem novo, e do homem novo
veio o cântico novo, dizem os Padres da Igreja. Em certo sentido até, o
homem novo é o cântico novo: na plenitude do céu, a própria Criação se torna
por assim dizer um cântico, o cosmos se torna louvor.
Na música da Igreja, o que se procura no fundo é antecipar esse louvor do
cosmos, preparar os novos céus e a nova terra (cfr. Apoc 21, 1 - 22, 5). Mas
isso só pode acontecer se a renovação do coração continuar, se o homem viver
de modo novo, se se tornar dia após dia um homem novo segundo o modelo de
Jesus Cristo. Por isso a vida monástica, esse esforço por criar como que um
prelúdio da forma definitiva da humanidade, sempre foi a grande escola do
cântico novo, onde o canto e a música da Igreja foram ganhando de forma
crescente a sua fisionomia peculiar.
Dois amores e dois tipos de música
Um homem novo e um cântico novo: esse vínculo é expresso de maneira exemplar
numa das belas fórmulas da Paixão de Santa Cecília, que era antigamente a
primeira antífona de laudes da sua festa. Este é o texto: Acompanhando a
melodia dos instrumentos, Cecília cantava assim ao Senhor: "Que o meu
coração conserve a sua pureza e as minhas forças não decaiam”:.. Cantantibus
organis Caecilia decantabat... Exteriormente, Cecília celebrava o seu
casamento com o noivo que lhe fora destinado, Valeriano, com o
acompanhamento da ruidosa música esponsal daquele tempo. Intimamente, porém,
celebrava o seu casamento com Outro, com Cristo, a quem tinha dado todo o
seu amor.
Contrapõem-se aqui dois casamentos, dois amores e, assim, também dois tipos
de música. Por fora, ressoa o velho cântico do homem velho, a ruidosa e
sensual música pagã, voltada inteiramente para os sentidos; essa música puxa
o homem para fora e para baixo, embota-lhe a mente, arranca-o de si e
torna-o surdo ao seu íntimo, fazendo emudecer o cântico interior. Por
dentro, nessa nova interioridade a que o homem acaba de ganhar acesso, na
nova altura e profundidade do ser humano, brota do encontro com Cristo um
novo amor; e com ele nasce o cântico novo. É um cantar da alma que começa no
coração - como nos diz São Paulo (cfr. Col 3, 16; Ef 5, 19) -, mas logo se
manifesta espontaneamente também no exterior, como nos mostram os hinos
cristãos. E este cantar tem diante de si um futuro inesgotável, enquanto
houver homens que se deixem tocar pela fé em Cristo e pelo seu amor.
No começo, o canto sai timidamente e em voz muito baixa. Na lenda de Santa
Cecília, tem de permanecer oculto no seu íntimo, lutando contra a estridente
música velha do mundo velho. Mas depois torna-se cada vez mais livre e mais
forte, e pode recorrer novamente aos instrumentos que tinha deixado de lado
para poder encontrar-se a si mesmo. Pode assim, e cada vez mais, fazer o
Universo cantar, dando o texto a misteriosa música do Cosmos da qual fala o
Salmo 19, de forma que já não seja sem palavras: Um dia transmite ao outro
essa mensagem [...]. Não é uma língua nem são palavras, a sua voz permanece
inaudível (Sal 19, 3-4). Não, a voz da Criação já não é mais inaudível,
porque encontrou a sua Palavra.
Integrar, não desintegrar
Assim se tornam visíveis, na história da música sacra, os dois planos
essenciais e indissociavelmente unidos, contidos no convite a "cantar ao
Senhor um cântico novo". Essa música pressupõe a grande Novidade que ocorreu
em Cristo e dela recebe a sua inspiração, a sua nova e própria natureza. Mas
é próprio da sua nova natureza inserir-se nessa inesgotável Novidade e nela
encontrar sempre coisas novas, que exprime de maneira também sempre
renovada, sem perder a unidade intrínseca a toda a história do canto
cristão. Quem despreza o passado rouba algo essencial ao novo; mas quem
quisesse permanecer apenas no passado, perderia a riqueza inesgotável dessa
Novidade que perdura até o fim dos tempos e o ultrapassa no hino da
Eternidade.
Desde os começos do Cristianismo até os nossos dias, estamos diante desse
maravilhoso processo em que o cântico novo, inicialmente tão humilde e até
escondido, se desenvolve cada vez mais, integrando em si a riqueza de todas
as possibilidades humanas, a riqueza do próprio Universo, e fazendo de tudo
isso um cântico a Deus. Mas podemos observar também, pelo menos desde o
século passado, o processo in-verso, em que as partes voltam a desagregar-se
e se tornam independentes, por assim dizer desnudando o cântico novo e
procurando reduzi-lo de novo à pobreza do começo. E se é assim, isso só pode
dever-se a fraqueza da nossa fé e, em consequência, aos fracassos e à
diminuição do nosso amor. Quando falta o homem novo, também o canto novo
perde o seu vigor.
Não podemos observar este sinal dos tempos sem examinar seriamente a nossa
consciência. Hoje, porém, nesta festa de Santa Cecília, ouvimos o cântico
novo em todo o seu esplendor e sentimos gratidão pela sua imensa beleza.
Cari musici, queremos agradecer-vos por nos ajudardes a louvar o nosso Deus.
E supliquemos, todos nós, que o novo cântico da nova Aliança nunca se cale,
mas ressoe para a glorificação de Deus com uma alegria sempre nova.
Homilia na festa de Santa Cecília, igreja dos santos Biagio e Carlo ai
Catinari de Roma, 22.11.1996.
Pouco se sabe sobre a vida de Santa Cecília, e mesmo o período em que viveu não
está inteiramente estabelecido (é provável que tenha sido martirizada entre os
anos de 176-180, sob o imperador Marco Aurélio). Contudo, a ardente devoção dos
fiéis e as escavações arqueológicas não deixam dúvida sobre a sua existência.
Segundo a Passio Sanctae Caeciliae, escrito piedoso de fins do século V, Cecília
era filha de um senador romano e cristã desde a infância. A certa altura, a
família deu-a em casamento ao jovem pagão Valeriano. Após a cerimônia, quando o
casal se retirou para os seus aposentos, Cecília disse ao marido que não
violasse a sua virgindade, pois era guardada por um anjo. Valeriano converteu-se
e recebeu o batismo naquela mesma noite. Cecília e Valeriano passaram a
dedicar-se a ajudar os pobres e os cristãos perseguidos até eles mesmos serem
condenados a morte. O prefeito de Roma, Turcius Almachius, executou primeiro
Valeriano. Cecília foi condenada a morrer sufocada na sala de banhos da sua
casa, mas a jovem nada sofreu com o superaquecimento, e o prefeito ordenou então
que fosse decapitada. Por três vezes o carrasco golpeou-lhe o pescoço sem
conseguir separar a cabeça do corpo; acabou por fugir, deixando-a caída no chão,
mas com três dedos da mão direita estendidos, numa referencia a Santíssima
Trindade. Foi enterrada na Catacumba de São Calisto.
A devoção à santa esteve muito difundida na Idade Média e, a partir do século
XIV, passou a ser considerada padroeira da música, por causa da passagem da
Passio Sanctae Caeciliae em que se narra o seu casamento, e que diz: cantantibus
organic illa in corde suo soli Domino decantabat ("acompanhando a melodia dos
instrumentos, Cecília cantava no seu coraçao apenas ao Senhor") (N. do T.).
A liturgia das horas ou ofício divino é oração pública - litúrgica - da Igreja;
está composta por salmos, leituras e orações. Tem diversas partes ou "horas",
das quais as laudes são a que se reza de manhã, originalmente antes do nascer do
sol (N. do T.).