Ideias ... Arte ... Ecumenismo
DISCURSOS E DECLARAÇÃO CONJUNTA DE BENTO XVI E CHRYSOSTOMOS II
DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI
DISCURSO DO ARCEBISPO CHRYSOSTOMOS II
DECLARAÇÃO CONJUNTA DE BENTO XVI E CHRYSOSTOMOS II
DISCURSO DO SANTO PADRE BENTO XVI
Beatitude e querido Irmão!
É com alegria que o recebo hoje, ouvindo ressoar no coração as palavras do
apóstolo Paulo: "Que o Deus da constância e da consolação vos conceda que
tenhais uns para com os outros os mesmos sentimentos, segundo Jesus Cristo, para
que, com um só coração e uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor
Jesus Cristo" (Rm 15, 5-6). A sua visita é um dom do Deus da perseverança e da
consolação, de que fala São Paulo dirigindo-se aos que ouviam pela primeira vez
em Roma a Mensagem da salvação. Do dom da perseverança façamos hoje experiência
dado que, apesar da presença de divisões seculares, de estradas divergentes, e
apesar da fadiga de curar feridas dolorosas, o Senhor não cessou de guiar os
nossos passos pelo caminho da unidade e da reconciliação. E isto é para todos
nós motivo de conforto, porque este nosso encontro de hoje se insere num caminho
de busca cada vez mais intensa daquela plena comunhão tão desejada por Cristo:
ut omnes unum sint" (cf. Jo17,21).
Sabemos bem como a adesão a este desejo ardente do Senhor não pode e não deve
ser proclamada apenas por palavras nem de modo formal. Por isso, Vossa
Beatitude, repercorrendo os passos do Apóstolo das Nações, não veio de Chipre a
Roma simplesmente para um "gesto de cortesia ecuménica", mas para reafirmar a
firme decisão de perseverar na oração a fim de que o Senhor nos indique como
alcançar a plena comunhão. Esta sua visita é ao mesmo tempo motivo de alegria
intensa, porque já no nosso encontrarmo-nos é-nos concedido saborear a beleza da
desejada plena unidade dos cristãos.
Obrigado, Beatitude, por este gesto de estima e de amizade fraterna. Na sua
pessoa saúdo o Pastor de uma Igreja antiga e ilustre, esplendorosa tessela
daquele resplandecente mosaico, o Oriente, que, segundo a expressão querida ao
Servo de Deus João Paulo II, de venerada memória, constitui um dos pulmões com
que a Igreja respira. A Sua agradável presença traz-me à mente a fervorosa
pregação de São Paulo em Chipre (cf. Act 13, 4 e ss.) e a aventurosa viagem que
o levou até Roma, onde anunciou o mesmo Evangelho e selou o seu luminoso
testemunho de fé com o martírio. Não nos convida porventura a recordação do
Apóstolo das Nações a dirigir com humildade e esperança o coração para Cristo,
que é o nosso único Mestre? Com a sua ajuda divina não nos devemos cansar de
procurar juntos os caminhos da unidade, superando aquelas dificuldades que no
decorrer da história determinaram divisões entre os cristãos e desconfiança
recíproca. Que o Senhor nos conceda poder aproximar-nos depressa do mesmo altar
para partilhar todos juntos da única mesa do Pão e do Vinho eucarísticos. Ao
recebê-lo, querido Irmão no Senhor, gostaria de prestar homenagem à antiga e
veneranda Igreja de Chipre, rica de santos, entre os quais me apraz recordar
particularmente Barnabé, companheiro e colaborador do apóstolo Paulo, e Epifânio,
Bispo de Constança, outrora Salamina, hoje Famagosta. Epifânio, que desempenhou
o seu ministério episcopal durante 35 anos num período turbolento para a Igreja
por causa da revivescência ariana e das emergentes controvérsias dos "pneumatómacos",
escreveu obras com a clara intenção catequética e apologética, como ele próprio
explica no Ancoratus. Este interessante tratado contém dois Símbolos de fé, o
Símbolo niceno-constantinopolitano e o Símbolo da tradição baptismal de
Constância, correspondente à fé nicena, mas diversamente formulado e ampliado, e
"mais adequado realça o próprio Epifânio para combater os erros que surgiam,
ainda que conforme àquela [fé] determinada pelos mencionados Padres" do Concílio
de Niceia (Ancoratus, n. 119). Nele explica nós afirmamos a fé no "Espírito
Santo, Espírito de Deus, Espírito perfeito. Espírito consolador, Incriado, que
procede do Pai e assume do Filho, objecto da nossa fé" (ibid.).
Como bom pastor, Epifânio indica ao rebanho que lhe foi confiado por Cristo as
verdades que se devem crer, o caminho a ser percorrido e os obstáculos que devem
ser evitados. Eis um método válido também hoje para o anúncio do Evangelho,
especialmente às novas gerações, muito influenciadas por correntes de pensamento
contrárias ao espírito evangélico. A Igreja encontra-se a enfrentar neste início
do terceiro milénio desafios e problemáticas não muito diferentes daqueles com
que teve que se confrontar o pastor Epifânio. Como então, também hoje é
necessário vigiar atentamente para advertir o Povo de Deus em relação aos falsos
profetas, aos erros e à superficialidade de propostas não conformes com o
ensinamento do Mestre divino, nosso único Salvador. Ao mesmo tempo, é urgente
encontrar uma linguagem nova para proclamar a fé que nos irmana, uma linguagem
partilhada, uma linguagem espiritual capaz de transmitir fielmente as verdades
reveladas, ajudando-nos assim a reconstruir, na verdade e na caridade, a
comunhão entre todos os membros do único Corpo de Cristo. Esta necessidade, que
todos sentimos, estimula-nos a prosseguir sem desânimos o diálogo teológico
entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa no seu conjunto; ela orienta-nos
para usar instrumentos válidos e estáveis, para que a busca da comunhão não seja
descontínua e ocasional na vida e na missão das nossas Igrejas.
Perante a obra imensa que nos espera e que vai além das capacidades humanas, é
necessário confiar-se antes de tudo à oração. Isto não impede que seja
obrigatório pôr em prática também hoje todos os meios humanos válidos, que
possam contribuir para esta finalidade. Nesta óptica considero a sua visita uma
iniciativa muito útil para nos fazer progredir rumo à unidade querida por
Cristo. Sabemos que esta unidade é dom e fruto do Espírito Santo; mas sabemos
também que ela exige, ao mesmo tempo, um esforço constante, animado por uma
vontade certa e por uma esperança inabalável no poder do Senhor. Portanto,
obrigado, Beatitude, por ter vindo visitar-me juntamente com os irmãos que o
acompanham; obrigado por esta presença que expressa concretamente o desejo de
procurar juntos a plena comunhão. Por meu lado garanto-lhe partilhar este mesmo
desejo, amparado por uma firme esperança. Sim, "o Deus da perseverança e do
conforto nos conceda ter uns para com os outros os mesmos sentimentos a exemplo
de Cristo".
Assim nos dirigimos confiantes ao Senhor, para que conduza os nossos passos pelo
caminho da paz, da alegria e do amor.
* * *
DISCURSO DO ARCEBISPO
CHRYSOSTOMOS II
"A todos os amados de Deus que estais em Roma, chamados à santidade: Graça e paz
vos sejam dadas da parte de Deus, nosso Pai, e da do Senhor Jesus Cristo" (Rm 1,
7).
Vossa Santidade Papa da Antiga Roma e Bispo da Cátedra histórica do Beato
Apóstolo Pedro!
A graça do Espírito Santo e o nosso dever de Arcebispo Primaz da Santíssima
Igreja-mártir do Santo Apóstolo Barnabé para a unidade e a paz entre as nossas
Igrejas Apostólicas, trouxeram hoje aqui os nossos passos, juntamente com o
nosso reverendo séquito, ao lugar do martírio da nossa santa fé comum, para
encontrar Vossa Santidade, aquele entre os Bispos que possui a primazia de honra
da Cristandade indivisa, para lhe dar o ósculo fraterno da paz e, após séculos
de caminho não fraterno, construir de novo pontes de reconciliação, colaboração
e amor!
Trata-se da terceira vez que nos encontramos depois das inesquecíveis exéquias
do seu amado predecessor o Papa João Paulo II, de feliz memória, e a jubilosa
cerimónia da sua entronização sobre este Trono Apostólico, pelo qual aspira toda
a Ecumene Cristã com grandes esperanças aguardando que aquele que o preside, o
teólogo sábio, o incansável pastor e o dinâmico leader eclesiástico, realize
gestos de diálogo, pacificação, aproximação e amor.
Grande é a importância nesta direcção do desenvolvimento do diálogo teológico
oficial entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, ao qual a nossa Igreja
Apostólica de Chipre participa com responsabilidade e coerência. Talvez os
nossos olhos não possam ver a tão desejada unidade da Igreja, mas com a graça do
Espírito Santo faremos também nós o nosso dever no tempo e no espaço como
pacificadores e verdadeiros irmãos "ut omnes unum sint".
Além disso, é nossa convicção pessoal que como o afastamento e o cisma entre as
nossas Igrejas-irmãs foi realizado durante a passagem de tantos séculos de
acumulados desentendimentos, assim também a sua reunificação e o
restabelecimento da confiança recíproca e do verdadeiro amor entre elas terá
necessidade de tempo, paciência e sacrifícios, mas que com o sentido da nossa
grande responsabilidade assumimos o encargo de levar a termo "em verdade e
caridade" sob a guia infalível do Espírito vivificante de Deus.
O nosso encontro de hoje realiza-se de modo fausto na vigília do 35º ano de
início das relações diplomáticas oficiais entre a Santa Sé e a República de
Chipre. De facto, em 1973, depois do encontro do Etnarca Arcebispo Macário III
com o Papa Paulo VI em Castelgandolfo, a representação das duas partes foi
confiada respectivamente ao então Arcebispo titular de Mauriana, D. Pio Laghi,
Delegado Apostólico em Jerusalém e na Palestina, actualmente Cardeal, e ao então
Embaixador em Paris, Sr. Polys Modinòs. Seja-me consentido aqui, Santidade,
mencionar o primeiro Embaixador de Chipre junto da Santa Sé residente em Roma,
Sua Ex.cia o Sr. Georgios Poulides, o nosso querido amigo e agradecer-lhe de
coração a devoção, o respeito e o seu amor à Igreja e a sua obra importante e
indispensável.
Durante os últimos decénios depois do Concílio Vaticano II alguns dos nossos
teólogos cipriotas, clérigos e leigos, obtiveram estudos post lauream em
diversas Universidades Pontifícias com bolsas de estudo do Pontifício Conselho
para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Portanto, desejamos expressar-lhe os
nossos agradecimentos e a nossa intenção de oferecer também por nosso lado, como
mínimo antidoron de gratidão, bolsas de estudo para cursos de Verão em Chipre a
teólogos católicos que estão interessados em aprender de perto o grego moderno
juntamente com as riquezas litúrgicas da Igreja Ortodoxa, para que também eles
um dia contribuam, por sua vez, para a visão da Igreja unida.
Recentemente, Sua Excelência o Presidente da República de Chipre, Senhor Tassos
Papadopoulos afirmou muito agilmente: "Chipre sempre foi Europa, ainda antes da
instituição da Europa. Com a sua entrada na U.E. Chipre voltou à sua casa".
Contudo, esta nossa Casa comum, a Europa, o berço da civilização ocidental, a
sede gloriosa do espírito cristão, a mãe dos santos e dos missionários, está a
atravessar um período de crise e de desorientação, de ateísmo e de dúvidas, de
secularização e de decadência. A sociedade e o homem do nosso tempo tem sede e
procura. Tem valores e princípios, tradições e costumes que foram criados na luz
do Evangelho e sob a guia sábia dos Padres da Igreja e das outras personalidades
eclesiásticas, mas não pode reconhecer a presença de Cristo e a força da sua
mensagem soteriológica. Rejeita a importância fundamental das raízes cristãs da
Europa: é a hora da Igreja e da nova evangelização, a hora da missão ad intra!
Mas sem a colaboração das Igrejas da Europa e sem o nosso comum testemunho
cristão certamente poucas coisas podem ter êxito positivo e muitos esforços
isolados das diversas Igrejas e Confissões Cristãs são, infelizmente, condenados
à falência. O nosso tempo globalizado em vez de influenciar positivamente o
europeu cristão convicto, parece recusar o ecumenismo histórico da mensagem
cristã e marginalizar a sua dinâmica e a sua eficiência. A secularização, o
eudemonismo, a deificação da tecnologia e da ciência ateia desorientam o nosso
próximo e levam-no inevitavelmente a um desespero existencial. Ouve-se
angustiado o seu grito: "Para quem iremos nós, Senhor?" (Jo 6, 68).
Qual é então a nossa responsabilidade como padres espirituais? Qual é a nossa
solicitude espiritual face à nossa juventude? Conseguiremos finalmente proteger
a sagrada instituição da família? A sacralidade da pessoa humana, indefesa
perante a pesquisa médica, o aborto e a eutanásia? A unicidade da criação de
Deus que nos circunda e corre o risco de ser destruída irreparavelmente por
nossa causa?
O caminho Ortodoxo passa através da espiritualidade, da ascese, do jejum, do
estudo dos textos dos Padres da Igreja inspirados por Deus, do sentido do
sagrado e sobretudo da Divina Eucaristia: são estas as nossas armas espirituais
e desejamos lutar juntos com a Igreja-irmã de Roma para transformar a sociedade
europeia que é antropocêntrica numa sociedade Cristocêntrica, com respeito pelos
nossos irmãos das outras religiões, os imigrados, os pobres, os refugiados e os
débeis da Terra.
A nossa presença hodierna aqui, Santidade, é um apelo a Vossa Santidade, o Papa
proveniente de um país amigo, traumatizado pela divisão por decénios, como o
nosso, mas graças a Deus reunificado. Por isso, só Vossa Santidade pode
compreender os sentimentos da nossa dor! A nossa Pátria e a Vossa Irmã, a Igreja
Apostólica de Chipre, sofre, mas também resiste dignamente com a intercessão dos
seus santos e particularmente com a protecção do seu fundador, o beato Apóstolo
Barnabé. Direitos humanos são espezinhados, monumentos destruídos, obras do
nosso património espiritual tornam-se objecto de comércio internacional e a
divisão da última capital europeia, Nicósia, parece perpetuar-se eternamente.
Quem ouvirá a nossa justa lamentação e elevará a voz de protesto aos poderosos
da Terra que exploram o nome de Cristo, mas permanecem surdos à lei do amor?
Santidade!
Pedimos o seu apoio através da invencível arma da oração fraterna, mas também
através do seu grito paterno pela defesa dos direitos imprescritíveis da Antiga
e Apostólica Igreja-Irmã de Chipre, esta encruzilhada dos povos, das religiões,
das línguas e das civilizações do Mediterrâneo e do Médio Oriente.
Desejá-mo-lo ao nosso lado! Através de nós o Santo Apóstolo Barnabé convida o
seu irmão maior, o Beato Apóstolo Pedro, a visitar pela primeira vez a sua
humilde casa, a ser nela hospedado, a senti-la como a sua própria casa, a
abençoá-la! Esperamos por Vossa Santidade, como Bispo da Sede de Roma que
preside à caridade, em Chipre do diálogo, da democracia, da dignidade, da fé, do
monaquismo, da hospitalidade, dos monumentos e das obras de arte! Digne-se vir e
dê-nos a ocasião de intercambiar a sua fraterna hospitalidade destes
maravilhosos dias que vivemos na Cidade Eterna!
Santidade!
Com as intercessões dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, Padroeiros da Diocese de
Roma, do Santo Apóstolo Barnabé, Fundador da Igreja de Chipre, e dos Santos
Gregos Isapóstolos Cirilo e Metódio, co-Padroeiros da Europa, desejamos-lhe do
fundo do coração saúde, longa vida e iluminação do Espírito Santo pelo feliz
cumprimento da sua alta missão como Pontífice-construtor de pontes entre os
povos, religiões e culturas. "Que o Deus da esperança vos encha plenamente de
alegria e de paz na vossa crença, para que abundeis na esperança pela virtude do
Espírito Santo" (Rm 15, 13).
* * *
DECLARAÇÃO
CONJUNTA DE BENTO XVI E CHRYSOSTOMOS II
"Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, do alto dos Céus,
nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo" (Ef1,3).
1. Nós, Bento XVI, Papa e Bispo de Roma, e Chrysostomos II, Arcebispo de Nova
Justiniana e de todo Chipre, com alegria damos graças por este encontro
fraterno, na fé comum em Cristo ressuscitado, cheios de esperança pelo futuro
das relações entre as nossas Igrejas. Esta visita permitiu-nos verificar como
cresceram tais relações quer a nível local, quer no âmbito do diálogo teológico
entre a Igreja católica e a Igreja ortodoxa no seu conjunto. A este diálogo a
Delegação da Igreja de Chipre sempre deu uma contribuição positiva, hospedando,
entre outros, em 1983 o Comité de Coordenação da Comissão Mista Internacional
para o diálogo teológico, de modo que os Membros católicos e ortodoxos, além de
desenvolver o empenhativo trabalho preparatório, pudessem visitar e admirar as
grandes riquezas artísticas e espirituais da Igreja de Chipre.
2. Na feliz circunstância do nosso encontro fraterno junto dos túmulos dos
Santos Pedro e Paulo, os corifeus dos Apóstolos como indica a tradição
litúrgica, desejamos declarar de comum acordo a nossa sincera e firme
disposição, em obediência à vontade de Nosso Senhor Jesus Cristo, a intensificar
a busca da plena unidade entre todos os cristãos, activando todos os esforços
que nos são possíveis e que consideramos úteis para a vida das nossas
Comunidades. Desejamos que os fiéis católicos e ortodoxos de Chipre vivam
fraternalmente e na plena solidariedade fundada na fé comum em Cristo
ressuscitado. Além disso, queremos apoiar e promover o diálogo teológico, que
através da competente Comissão Internacional se prepara para enfrentar as
questões mais difíceis que marcaram as vicissitudes históricas da divisão. É
necessário alcançar um substancial acordo pela plena comunhão na fé, na vida
sacramental e no exercício do ministério pastoral. A este propósito garantimos a
nossa fervorosa oração de Pastores na Igreja e pedimos aos nossos irmãos que se
unam a nós numa coral invocação para que todos sejam um, para que o mundo creia"
(Jo 17, 21).
3. Considerámos no nosso encontro as conjunturas históricas em que vivem as
nossas Igrejas. Em particular, examinámos a situação de divisão e de tensão que
caracterizam há mais de um trinténio a Ilha de Chipre, com os trágicos problemas
quotidianos que minam também a vida das nossas comunidades e de cada família.
Considerámos, mais amplamente, a situação do Médio Oriente, onde a guerra e os
contrastes entre os povos correm o risco de expandir-se com consequências
desastrosas. Invocámos a paz "que vem do alto". As nossas Igrejas desejam
desenvolver um papel de pacificação na justiça e na solidariedade e, para que
tudo isto se realize, é nosso desejo promover as relações fraternas entre todos
os cristãos e um diálogo leal entre as diversas religiões presentes e activas na
Região. A fé no único Deus ajude todos os homens destas antigas e ilustres
terras a reencontrar uma convivência amigável, no respeito recíproco e numa
colaboração construtiva.
4. Portanto, dirigimos este apelo a quantos, em toda a parte, no mundo, levantam
a mão contra os próprios irmãos, exortando-os com firmeza a depor as armas e a
trabalhar para que sejam curadas as feridas causadas pela guerra. Além disso,
convidamo-los também a comprometer-se para que os direitos humanos sejam
defendidos sempre, em todas as Nações: o respeito do homem, imagem de Deus, é de
facto, para todos um dever fundamental. Assim também, entre os direitos humanos
a serem tutelados, deve ser incluído como primário o da liberdade de religião.
Não o respeitar constitui uma gravíssima ofensa à dignidade do homem, que é
ferido no íntimo do coração onde habita Deus. Portanto profanar, destruir e
saquear os lugares de culto de qualquer religião, representa um acto contra a
humanidade e contra a civilização dos povos.
5. Também não deixamos de reflectir sobre uma nova oportunidade que se abre para
um contacto mais intenso e uma colaboração mais concreta entre as nossas
Igrejas. De facto, prossegue a construção da União Europeia, e católicos e
ortodoxos são chamados a contribuir para criar um clima de amizade e de
cooperação. Num tempo de crescente secularização e de relativismo, católicos e
ortodoxos na Europa estão chamados a oferecer um renovado testemunho comum sobre
os valores éticos sempre prontos para dizer a razão da sua fé em Jesus Cristo
Senhor e Salvador. A União Europeia, que não se pode limitar a uma cooperação
meramente económica, necessita de sólidas bases comuns, de partilhadas
referências éticas e de abertura à dimensão religiosa. É necessário vivificar as
raízes cristãs da Europa, que tornaram grande a sua civilização nos séculos, e
reconhecer que a tradição cristã ocidental e a oriental têm, neste sentido, uma
tarefa comum importante a desenvolver.
6. Portanto, no nosso encontro considerámos o longo caminho histórico das nossas
Igrejas e a grande tradição que, partindo do anúncio dos primeiros discípulos
que, de Jerusalém, chegaram a Chipre, depois da perseguição contra Estêvão e
repercorrendo a viagem de Paulo pelo litoral de Chipre até Roma, como nos narram
os Actos dos Apóstolos (Act 11, 19; 27, 4ss.), chega aos nossos dias. O rico
património de fé e a sólida tradição cristã das nossas terras, devem estimular
católicos e ortodoxos a um renovado impulso ao anunciar o Evangelho ao nosso
tempo, para sermos fiéis à nossa vocação cristã e responder às exigências do
mundo de hoje.
7. Causa séria preocupação o modo como são enfrentadas as questões relativas à
bioética. Com efeito, há o perigo de que certas técnicas aplicadas à genética,
intencionalmente concebidas para fazer frente a necessidades legítimas, de facto
minem a dignidade do homem, criado à imagem de Deus. A exploração do ser humano,
as experimentações abusivas, as experiências de uma genética que não respeita os
valores éticos causam ofensa à vida, atentam contra a incolumidade e dignidade
de cada pessoa humana e não podem nem devem ser justificadas ou permitidas em
momento algum da sua existência.
8. Ao mesmo tempo, estas considerações éticas e a partilhada preocupação pela
vida humana levam-nos a convidar aquelas nações que, com a graça de Deus
obtiveram significativos progressos no campo da economia e da tecnologia, a não
esquecer os seus irmãos que habitam em Países atingidos pela pobreza, pela fome
e pelas doenças. Por conseguinte, convidamos os responsáveis das Nações a
favorecer e promover uma justa distribuição dos recursos da terra, em espírito
de solidariedade com os pobres e com todos os indigentes do mundo.
9. De igual modo concordes se revelaram as nossas preocupações pelo risco da
destruição da criação. O homem recebeu-a para que com ela possa realizar o
desígnio de Deus. Mas, ao erigir-se a si mesmo como centro do universo,
esquecendo o mandato do Criador e fechando-se numa busca egoísta do seu próprio
bem-estar, o ser humano administrou o ambiente no qual vive fazendo opções que
põem em perigo a sua própria existência, enquanto ele exige respeito e tutela da
parte de todos os que nele habitam.
10. Juntos dirigimos a nossa oração ao Senhor da história, para que fortaleça o
testemunho das nossas Igrejas a fim de que o anúncio de salvação do Evangelho
alcance as novas gerações e seja luz para todos os homens. Para esta finalidade
confiamos os nossos desejos e os nossos compromissos à Theotokos, à Mãe de Deus
Odigitria, que indica o caminho para Nosso Senhor Jesus Cristo.
Vaticano, 16 de Junho de 2007.
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