Discurso do secretário do Conselho Mundial das Igrejas ao Papa



Sua Santidade:


1. É para mim uma grande honra estar aqui, acompanhado do Bispo Ebergardt Renz, da Igreja Evangélica da Alemanha, Presidente do CMI, e do Arcebispo Makarios, do Quênia, e Irinoupolis, do Patriarcado Ortodoxo Grego da Alexandria e toda a África, membro do Comitê Central do CMI, assim como da minha esposa Ruth e de membros do pessoal do CMI. Juntos representamos a ampla comunidade do Conselho Mundial de Igrejas.

2. A minha visita a Roma realiza-se num momento gozoso e promissor, poucas semanas após a vossa eleição. Desejaria reiterar-lhe a segurança de que nossas orações o acompanharão no exercício de seu ministério, que o senhor inaugurou com claros sinais de esperança. Desejaria expressar nosso profundo reconhecimento por uma das suas primeiras mensagens na qual afirma que sua tarefa primordial, seu anseio e seu dever urgente será “trabalhar sem descanso para reconstruir a unidade plena e visível de todos os seguidores de Cristo”.

3. A minha visita acontece também na perspectiva de uma longa história de compromisso comum com o único movimento ecuménico, quando nos preparamos para celebrar quarenta anos de colaboração entre a Igreja Católica Romana e o Conselho Mundial de Igrejas através do Grupo Misto de Trabalho.

4. Realizamos um longo caminho de compromisso comum e colaboração, caracterizado por um empenho decidido e frutuoso da Igreja Católica Romana na Comissão de Fé e Constituição do Conselho Mundial de Igrejas, da qual o senhor foi pessoalmente membro de 1968 a 1975, assim como pela valiosa contribuição do pessoal nomeado pela Igreja Católica Romana para trabalhar na Comissão sobre Missão Evangelização e no Instituto Ecuménico Bossey. Foi também um caminho assinalado por acontecimentos históricos. Recordo com agradecimento a visita que realizaram ao Conselho Mundial de Igrejas seus os estimados e carinhosamente recordados predecessores, o Papa Paulo VI e o Papa João Paulo II. Sentir-nos-íamos especialmente honrados em receber também Sua Santidade no Conselho Mundial de Igrejas, como outro passo concreto no nosso longo caminho para a unidade visível.

5. Reconhecendo os muitos desafios do século XXI, desejaria destacar aqui três áreas de capital importância nas quais a nossa colaboração poderá render frutos em benefício de todas as igrejas e do movimento ecuménico no seu conjunto.

5.1. Espiritualidade. Tanto falamos de “espiritualidade do movimento ecuménico” como de um “ecumenismo espiritual”, em último termo seguimos o conselho de Dietrich Boenhoeffer de buscar um “espiritual ponto de apoio”, um fundamento santo sobre o qual possamos manter-nos e desde o qual, como cristãos, possamos exercer um efeito multiplicador sobre um mundo que necessita de transformação e esperança. Por esta razão, através do nosso diálogo e cooperação ecuménicos, baseados no terreno fértil dos nossos respectivos tesouros espirituais, poderemos buscar unidos um lugar estável de clareza moral e confiança no meio da turbulenta paisagem humana actual com os seus valores mutáveis, esperanças incertas e compromissos evanescentes.

5.2. Formação Ecuménica. A formação ecuménica é um imperativo hoje em dia. Convida a geração mais jovem a informar-se, a participar e a intervir activamente nos esforços de construção de uma comunidade na única casa de Deus. Nas últimas décadas, as relações entre igrejas mudaram radicalmente, passando do isolamento ao respeito humano, à cooperação e também --especialmente entre as igrejas da Reforma-- à comunidade eucarística. A história da peregrinação ecuménica das igrejas está a enriquecer-se constantemente. Mas, ao mesmo tempo, estão a diminuir cada vez mais os meios clássicos de formação ecuménica. Deram-se passos importantes no caminmho da unidade visível que não se comunicam devidamente, nem se recebem plenamente, nem se põem em prática nas vidas das Igrejas.

5.3. Eclesiologia. Como consequência do trabalho da Comissão Especial sobre a Participação Ortodoxa no CMI, nossa comunidade foi chamada a prestar renovada atenção aos pressupostos eclesiológicos que subjazem ao compromisso para a unidade cristã. Assim, pois, respeitando-nos profundamente uns aos outros, e no espírito de compromisso das nossas igrejas membro para com a comunidade que compartilham dentro do CMI, perguntamos às nossas igrejas membro ortodoxas: “Há espaço para outras igrejas na eclesiologia ortodoxa? Como pode descrever-se este espaço e os seus limites?” De igual forma, perguntamos às Igrejas pertencentes à tradição da Reforma: “ A vossa Igreja, como entende, mantém e expressa sua pertença à Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica?”

5.4. As respostas a estas perguntas eclesiológicas fundamentais determinarão certamente se nossas Igrejas membro reconhecem ou não o baptismo das demais, assim como a sua capacidade ou incapacidade para se reconhecerem umas às outras como Igrejas. Influirão na forma como as igrejas entendem o objetivo do movimento ecuménico e seus instrumentos, nomeadamente o CMI. Por conseguinte, e por muitas razões, desejaríamos estimular o diálogo sobre estas perguntas fundamentais não só dentro da Comissão de Fé e Constituição, mas também nas nossas relações com todos os nossos interlocutores ecuménicos.

6. As Igrejas membro do CMI são enormemente diversas. Mas são uma só no seu compromisso de viver a sua fé cristã no mundo de hoje: proclamar essa fé como mensagem de esperança para a humanidade; encontrar fortaleza nessa fé para resistir às forças da não razão e do relativismo, encontrar recursos nessa fé para resistir à injustiça e trazer a reconciliação e cura a um mundo que as necessita.

7. Reconhecemos que nossa fé é mais eficaz e vibrante quando a vivemos unidos com nossos irmãos e irmãs em Cristo; que nossa proclamação e testemunho profético,a  nossa missão e serviço adquirem a maior eficácia quando podemos orar, confessar, falar e actuar unidos e não separados. Por isso, desejaria concluir voltando ao tema da unidade. No baptismo Cristo fez-nos propriedade sua. Ao fazer-nos seus, Cristo uniu-nos inseparavelmente a cada um de nós consigo mesmo, e com os demais. O nosso vínculo de unidade é inquebrantável porque não está enraizado em nós, mas sim em Cristo. Somos um em Cristo. Que todos os cristãos orem e trabalhem unidos para que nossa unidade se faça visível a fim de que todo o mundo a veja!

 

Tradução: rosabiblica.com