PONTIFÍCIO CONSELHO PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
MENSAGEM AOS HINDUS POR OCASIÃO DA FESTA DO DIWALI 2004
"A colaboração entre os cristãos e hindus com especial referência à infância"
Queridos amigos hindus
1. O Diwali, Festa das Luzes, é uma das mais antigas e importantes festas que
vós celebrais nas vossas tradições religiosas. Durante estes dias festivos, vós
recordais a vitória do bem sobre o mal. Ela é simbolizada mediante a iluminação
das vossas casas com lâmpadas que se acendem para afugentar a escuridão da
noite. Pode-se ver a esperança renovada em numerosos rostos; vêem-se sinais de
grande alegria nos corações de muitos hindus; e nas pessoas que se sentem
abatidas pelas preocupações e as solicitudes da vida quotidiana, vislumbra-se
uma renovada determinação a recomeçar com novo vigor. Em nome do Pontifício
Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, ao qual Sua Santidade o Papa João Paulo
II confiou a tarefa de promover relacionamentos harmoniosos e amistosos com as
pessoas de todas as religiões, desejo-vos um feliz Diwali.
2. Em todas as religiões, as pessoas que aspiram de modo particular por ver
chegarem os dias de festa são as crianças. O seu entusiasmo pela participação na
celebração de uma festa é verdadeiramente comovedor. São elas que dão alegria
ilimitada à celebração, porque renovam o espírito das pessoas adultas. As
crianças dão forma e cor, gosto e sabor, inspiração e aspiração, esperança e
promessa de perseverança à celebração. Com efeito, nenhuma celebração merece
verdadeiramente este nome, a não ser que às crianças seja reservado um lugar
fulcral, sobretudo porque o espírito das festas exige que todos tenham um
espírito pueril. Não é assim, porventura, também no que se refere à festa do
Diwali.
3. Durante a celebração do Diwali do corrente ano, dirijo o meu pensamento às
crianças, pelas quais Jesus tinha uma predilecção especial, em virtude da "sua
cumplicidade, da sua alegria vital, da sua espontaneidade e da sua fé repleta de
admiração", como o Santo Padre João Paulo II nos recordou (Angelus de 18 de
Dezembro de 1994). Certo dia, quando os seus discípulos estavam a debater sobre
quem era o maior, Jesus chamou uma criança para junto de si e disse: "Em verdade
vos digo: se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no
Reino do Céu. Quem, pois, se fizer humilde como este menino, será o maior no
Reino do Céu. Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim mesmo que o
recebe. Mas se alguém escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, seria
preferível que lhe suspendessem do pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas
profundezas do mar" (Mt18,3-6).
4. Deveis concordar comigo, reconhecendo que uma das finalidades das festas
religiosas consiste em fazer de nós pessoas humanas melhores. Durante a presente
estação do Diwali, enquanto procurais vencer a escuridão através da luz, o mal
com o bem e o ódio mediante o amor, gostaria de vos propor, como um dos vossos
amigos cristãos, que centrássemos a nossa atenção sobre os males presentes na
nossa sociedade, que afligem as crianças: o trabalho forçado, o recrutamento
obrigatório, a ruptura das famílias, o tráfico de órgãos e de pessoas, o abuso
sexual, a prostituição coagida, a Sida, a venda e o recurso às drogas, etc. O
que foi que as crianças fizeram, para merecer tamanhos sofrimentos? Não poderia,
porventura, o diálogo entre os hindus e os cristãos assumir uma forma concreta,
mediante um trabalho conjunto em vista de ajudar as crianças mais
desfavorecidas, que muitas vezes são as vítimas inocentes das guerras e da
violência, da subalimentação e da escassez hídrica, da imigração forçada e de
inúmeras formas de injustiça, presentes no mundo contemporâneo. Estou
profundamente consciente de que já existe este tipo de cooperação entre os
seguidores das nossas duas tradições religiosas, mas poderíamos e deveríamos
fazer mais, uma vez que o problema é sério, na realidade trágico. São realmente
louváveis as vossas sugestões, a respeito daquilo que se poderia fazer para dar
às crianças o lugar que lhes compete no seio da sociedade. As nossas crianças
são o nosso futuro, o porvir da humanidade.
5. Estimados amigos hindus, para vós a celebração da Festa do Diwali é
inconcebível, sem o júbilo com que as crianças a inundam. Não poderíeis dar um
ulterior significado ao Diwali do presente ano, chamando a atenção para o
flagelo das crianças, nos vossos bairros, nas vossas cidades, na sociedade em
geral e, mais amplamente, no mundo inteiro? Enquanto me imagino circundado por
essas crianças, formulo-vos de novo os seguintes votos: Feliz Festa do Diwali!
D. Michael L. FITZGERALD
Presidente