COMISSÃO TEOLÓGICA INTERNACIONAL
MEMÓRIA E RECONCILIAÇÃO: A IGREJA E AS CULPAS DO PASSADO
NOTA PRELIMINAR
O estudo do tema "A igreja e as culpas do passado" foi proposto à Comissão
Teológica Internacional pelo seu Presidente, Cardeal J. Ratzinger, tendo em
vista a celebração do Jubileu do ano 2000. Para preparar este estudo foi
constituída uma subcomissão composta pelo Rev. Christopher Begg, Mons. Bruno
Forte (presidente), Rev. Sebastian Karotemprel S.D.B., Mons. Roland Minnerath,
Rev. Thomas Norris, Rev. Rafael Salazar Cardenas M.Sp.S. e Mons. Anton
Strukelj. As discussões gerais sobre este tema desenrolaram-se em inúmeros
encontros da subcomissão e durante as sessões plenárias da mesma Comissão
Teológica Internacional, que tiveram lugar em Roma em 1998 e 1999. O presente
texto foi aprovado sob forma specifica com voto por escrito da Comissão, e, em
seguida, apresentado ao seu presidente, Cardeal J. Ratzinger, Perfeito da
Congregação para a Doutrina da Fé, que deu a sua aprovação para publicação.
INTRODUÇÃO
A bula de proclamação do Ano Santo de 2000, Incarnationis mysterium (29 de
Novembro de 1998), aponta entre os sinais "que oportunamente podem servir para
viver com maior intensidade a insigne graça do jubileu", a purificação da
memória. Esta consiste no processo destinado a libertar a consciência pessoal
e colectiva de todas as formas de ressentimento ou violência que a herança de
culpas do passado pode haver deixado, mediante uma renovada avaliação
histórica e teológica dos acontecimentos implicados que conduza - se for esse
o resultado - ao correspondente reconhecimento de culpa e contribua para um
real caminho de reconciliação. Semelhante processo pode incidir de modo
significativo no presente, justamente porque as culpas passadas fazem
frequentemente sentir ainda o peso das suas consequências e permanecem como
outras tantas tentações também hoje.
Enquanto tal, a purificação da memória requer "um acto de coragem e humildade
para reconhecer as faltas cometidas por quantos tiveram e têm o nome de
cristãos", e funda-se na convicção de que "por causa daquele vínculo que nos
une uns aos outros no corpo místico, todos nós, não tendo embora
responsabilidade pessoal por isso e sem nos substituirmos ao juízo de Deus - o
único que conhece os corações -, carregamos o peso dos erros e culpas dos que
nos precederam". João Paulo II acrescenta: "Como sucessor de Pedro, peço que
neste ano de misericórdia a Igreja, fortalecida pela santidade que recebe do
seu Senhor, se ajoelhe diante de Deus e implore o perdão para os pecados
passados e presentes dos seus filhos." (1) Para confirmar que "os cristãos são
convidados a assumir, perante Deus e os homens ofendidos pelos seus
comportamentos, as faltas que cometeram", o Papa conclui: "Façam-no sem nada
pedir em troca, animados apenas pelo 'amor de Deus [que] foi derramado em
nossos corações' (Rm 5,5)." (2)
Os pedidos de perdão feitos pelo Bispo de Roma neste espírito de autenticidade
e gratuidade, suscitaram diversas reacções: a incondicional confiança que o
Papa demonstrou ter no poder da Verdade encontrou acolhimento geralmente
favorável, dentro e fora da comunidade eclesial. Não poucos sublinharam a
acrescida credibilidade das declarações eclesiais em consequência deste
comportamento. Não faltaram, porém, algumas reservas, expressão sobretudo da
apreensão ligada a particulares contextos históricos e culturais, em que a
mera admissão de faltas cometidas pelos filhos da Igreja poderia assumir o
significado de uma cedência perante as acusações de quem lhe é
preconceituosamente hostil. Entre consenso e apreensão, adverte-se para a
necessidade de uma reflexão que esclareça as razões, condições e exacta
configuração dos pedidos de perdão relativos às culpas do passado. Desta
necessidade entendeu encarregar-se a Comissão Teológica Internacional, na qual
estão representadas diferentes culturas e sensibilidades no interior da única
fé católica, elaborando o presente texto. Nele é oferecida uma reflexão
teológica acerca das condições de possibilidade dos actos de "purificação da
memória", ligados ao reconhecimento das culpas do passado.
As questões a que se procura responder são: Porquê efectuar tais actos? Quais
os seus sujeitos adequados? Qual o seu objecto e como é ele determinado,
conjugando correctamente juízo histórico e juízo teológico? Quais são os
destinatários? Quais as implicações morais? E quais os possíveis efeitos na
vida da Igreja e na sociedade? O objectivo do texto não é, portanto, levar a
exame casos históricos particulares, mas clarificar os pressupostos que tornam
fundado o arrependimento relativo a culpas passadas.
O haver precisado, desde o início, o género de reflexão aqui apresentada
clarifica também aquilo a que nos referimos quando se fala da Igreja: não se
trata nem só da instituição histórica, nem apenas da comunhão espiritual dos
corações iluminados pela fé. Por Igreja entender-se-á sempre a comunidade dos
baptizados, inseparavelmente visível e operante na história sob a direcção dos
pastores, e unificada na profundidade do seu mistério pela acção do Espírito
vivificante; aquela Igreja que - segundo as palavras do concílio Vaticano II -
"por uma não fraca analogia é comparada ao mistério do Verbo incarnado. Pois,
assim como a natureza assumida serve ao Verbo divino de instrumento vivo de
salvação, a Ele indissoluvelmente unido, de modo semelhante a estrutura social
da Igreja serve ao Espírito de Cristo, que a vivifica, para o crescimento do
corpo (cf. Ef 4,16)" (LG 8). Esta Igreja - que abraça os seus filhos do
passado, assim como os do presente, numa real e profunda comunhão - é a única
Mãe na Graça que carrega em si o peso das culpas também passadas para
purificar a memória e viver a renovação do coração e da vida segundo a vontade
do Senhor.Pode fazê-lo porquanto Jesus Cristo - de que é o Corpo misticamente
prolongado na história - assumiu em si, de uma vez por todas, os pecados do
mundo.
A estrutura do texto reflecte as questões colocadas: faz primeiramente uma
breve revisitação histórica do tema (cap. I), para poder indagar, depois, os
fundamentos bíblicos (cap. II) e aprofundar as condições teológicas dos
pedidos de perdão (cap. III). A precisa conjugação de juízo histórico e juízo
teológico é elemento decisivo para chegar a asserções correctas e válidas, que
dêem adequadamente conta dos tempos, dos lugares e dos contextos em que se
situam os actos considerados (cap. IV). Às implicações morais (cap. V),
pastorais e missionárias (cap. VI) destes actos de arrependimento relativos às
culpas do passado, são dedicadas as considerações finais, que têm naturalmente
um valor específico para a Igreja católica. Mas a consciência de que a
exigência de reconhecer as culpas próprias tem razão de ser para todos os
povos e para todas as religiões, faz-nos desejar que as reflexões propostas
ajudem todos a avançar pelo caminho da verdade, do diálogo fraterno e da
reconciliação.
Para concluir esta introdução, não será inútil mencionar de novo a finalidade
última de todo o possível acto de "purificação da memória" levado a cabo pelos
crentes, pois também ele inspirou o trabalho da Comissão: trata-se da
glorificação de Deus, porque viver na obediência à Verdade divina e às suas
exigências leva a confessar, juntamente com as nossas culpas, a misericórdia e
justiça eternas do Senhor. A confessio peccati - sustentada e iluminada pela
fé na Verdade que liberta e salva (confessio fidei) - torna-se confessio
laudis dirigida a Deus, na presença de quem apenas é possível reconhecer as
culpas do passado assim como as do presente, para nos deixarmos reconciliar
n'Ele e com Ele em Jesus Cristo, único Salvador do mundo, e tornarmo-nos
capazes de oferecer o perdão a quantos tivermos ofendido. Esta oferta de
perdão surge particularmente significativa se pensarmos em tantas perseguições
sofridas pelos cristãos ao longo da história. Nesta perspectiva, os actos
realizados e pedidos pelo Papa, em relação às culpas do passado, apresentam
valor exemplar e profético, quer para as religiões quer para os governos e as
nações, para além da Igreja católica que poderá, desse modo, ser ajudada a
viver de maneira mais eficaz o grande Jubileu da incarnação como acontecimento
de graça e de reconciliação para todos.
1. O PROBLEMA: ONTEM E HOJE
1.1. Antes do Vaticano II
O Jubileu foi sempre vivido na Igreja como um tempo de alegria pela salvação
dada em Cristo e como ocasião privilegiada de penitência e reconciliação pelos
pecados presentes na vida do povo de Deus. Desde a sua primeira celebração,
com Bonifácio VIII, no ano de 1300, a peregrinação penitencial ao túmulo dos
Apóstolos Pedro e Paulo está associada à concessão de uma indulgência
excepcional para obter, com o perdão sacramental, a remissão total ou parcial
das penas temporais devidas aos pecados.(3) Neste contexto, quer o perdão
sacramental quer a remissão das penas revestem-se de carácter pessoal. Ao
longo do "ano do perdão e da graça",(4) a Igreja dispensa de modo particular o
tesouro de graças que Cristo constituiu em seu favor.(5) Em nenhum dos
jubileus celebrados até hoje, porém, houve uma tomada de consciência das
eventuais culpas do passado da Igreja, nem da necessidade de pedir perdão a
Deus por comportamentos do passado próximo ou remoto.
Deste modo não se encontram, em toda a história da Igreja, precedentes de
pedidos de perdão relativos a culpas do passado, que tenham sido formulados
pelo Magistério. Os concílios e os decretos papais sancionavam, é certo, os
abusos de que fossem dados como culpados clérigos ou leigos, e não eram poucos
os pastores que se esforçavam sinceramente por os corrigir. Foram, porém,
raríssimas as ocasiões em que as autoridades eclesiais - papas, bispos ou
concílios - reconheceram abertamente as culpas ou os abusos de que fossem
culpados eles próprios. Um exemplo célebre é dado pelo papa reformador Adriano
VI que reconhecia publicamente numa mensagem à Dieta de Nuremberga, em 25 de
Novembro de 1522, "as abominações, os abusos […] e a prevaricações" de que era
culpada a "corte romana" do seu tempo, "doença […] profundamente radicada e
propagada" que se estendia "da cabeça aos membros".(6) Adriano VI lamentava as
culpas contemporâneas, precisamente as dos seu imediato predecessor, Leão X, e
da sua cúria, sem, no entanto, lhe associar um pedido de perdão.
Será necessário esperar por Paulo VI para ver um Papa exprimir um pedido de
perdão dirigido quer a Deus quer a um grupo de contemporâneos. No discurso de
abertura da 2ª sessão do Concílio, o Papa "pede perdão a Deus […] e aos irmãos
separados" do Oriente que se sentirem ofendidos "por nós" (Igreja católica), e
declara-se pronto, da sua parte, a perdoar as ofensas recebidas. Na
perspectiva de Paulo VI o pedido e a oferta de perdão diziam unicamente
respeito ao pecado da divisão entre cristãos e pressupunham reciprocidade.
1.2. Ensinamento do Concílio
O Vaticano II coloca-se na mesma perspectiva de Paulo VI. Pelos erros
cometidos contra a unidade - afirmam os Padres conciliares - "pedimos perdão a
Deus e aos irmãos separados, assim como também perdoamos àqueles que nos
ofenderam" (UR 7). Para além dos erros contra a unidade, o Concílio assinala
outros episódios negativos do passado, nos quais os cristãos tiveram
responsabilidade. Desse modo, "deplora certas atitudes de espírito que não
faltaram mesmo entre os cristãos", que puderam fazer pensar numa oposição
entre ciência e fé (GS 36). Considera, igualmente, que "na génese do ateísmo",
os cristãos podem ter tido "uma certa reponsabilidade", na medida em que com a
sua negligência "antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e
da religião" (GS 19). Além disso, o Concílio "deplora" as perseguições e
manifestações de anti-semitismo levadas a cabo "seja em que tempo for e seja
por quem for" (NA 4). Contudo, o Concílio não associa um pedido de perdão aos
factos citados.
Do ponto de vista teológico, o Vaticano II distingue entre a indefectível
fidelidade da Igreja e as fraquezas dos seus membros, clérigos ou leigos,
ontem como hoje (GS 43 §6), e, portanto, entre ela, Esposa de Cristo "sem
mancha nem ruga […] santa e imaculada" (cf. Ef 5,27), e os seus filhos,
pecadores redimidos, chamados à permanente metanoia, à renovação no Espírito
Santo. "A Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente
santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência
e a renovação" (LG 8).(7)
O Concílio elaborou, ainda, alguns critérios de discernimento relativamente à
culpabilidade ou à responsabilidade dos vivos pelos erros passados. De facto,
mencionou, em dois contextos diferentes, a não imputabilidade aos
contemporâneos dos erros cometidos no passado por membros da sua comunidade
religiosa:
- "Tudo quanto foi perpretado na paixão (de Cristo), não pode ser imputado
indistintamente a todos os judeus que então viviam, nem aos judeus do nosso
tempo." (NA 4)
- "Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica,
algumas não sem culpa dos homens de um e outro lado. Aqueles, porém, que agora
nascem em tais comunidades e são instruídos na fé de Cristo, não podem ser
acusados do pecado da separação, e a Igreja católica abraça-os com fraterna
reverência e amor." (UR 3)
Ao primeiro Ano Santo celebrado depois do Concílio, em 1975, Paulo VI deu como
tema "renovação e reconciliação",(8) precisando, na exortação apostólica
Paterna cum benevolentia, que a reconciliação deveria, antes de mais,
realizar-se entre os fiéis da Igreja católica.(9) Tal como, nas suas origens,
o Ano Santo permanecia ocasião de conversão e reconciliação dos pecadores com
Deus mediante a economia sacramental da Igreja.
1.3. Os pedidos de perdão de João Paulo II
João Paulo II não apenas renova o pesar pelas "dolorosas memórias" que marcam
a história das divisões entre cristãos, como haviam feito Paulo VI e o
concílio Vaticano II,(10) mas estende também o pedido de perdão a uma
multitude de factos históricos nos quais a Igreja enquanto instituição ou
grupos particulares de cristãos estiveram implicados a diferentes títulos.(11)
Na carta apostólica Tertio millenio adveniente (cf. TMA 33-36), o Papa
alegra-se que o Jubileu do Ano 2000 seja ocasião para uma purificação da
memória da Igreja de "todas as formas de contratestemunho e de escândalo" que
aconteceram ao longo do milénio passado (cf. TMA 33).
A Igreja é convidada a "assumir com maior consciência o peso do pecado dos
seus filhos". Ela "reconhece sempre como próprios os filhos pecadores" e
incita-os a "purificarem-se, pelo arrependimento, de erros, infidelidades,
incoerências, retardamentos" (TMA 33). A responsabilidade dos cristãos nos
males do nosso tempo é, de igual modo, evocada (cf. TMA 36), embora o acento
seja colocado particularmente na solidariedade da Igreja de hoje com os erros
passados, alguns dos quais são explicitamente mencionados, como a divisão
entre os cristãos (cf. TMA 34), ou "os métodos de violência e intolerância"
utilizados no passado para evangelizar (cf. TMA 35).
O próprio João Paulo II estimula o aprofundamento teológico acerca do peso dos
erros do passado e sobre o eventual pedido de perdão aos contemporâneos(12)
quando, na exortação Reconciliatio et paenitentia, afirma que no sacramento da
penitência "o pecador se encontra só perante Deus com a sua culpa, o seu
arrependimento e a sua confiança. Ninguém se pode arrepender em seu lugar ou
pedir perdão em seu nome" (n. 31). O pecado é, pois, sempre pessoal, mesmo se
fere toda a Igreja que, representada pelo sacerdote ministro da penitência, é
mediadora sacramental da graça que reconcilia com Deus. Também as situações de
"pecado social" - que se verificam no interior das comunidades humanas quando
a justiça, a liberdade e a paz são lesadas - "são sempre fruto, acumulação e
concentração de pecados pessoais". No momento em que a responsabilidade moral
se diluísse em causas anónimas, não se poderia falar de pecado social senão
por analogia (cf. RP 16). Daí resulta que a imputabilidade de uma culpa não
possa ser estendida para lá do grupo de pessoas que nela consentiram
voluntariamente, mediante acções ou omissões, ou por negligência.
1.4. Questões que se colocam
A Igreja é uma sociedade viva que atravessa os séculos. A sua memória não é
apenas constituída pela tradição que remonta aos Apóstolos, normativa para a
sua fé e a sua própria vida, mas é também rica na variedade de experiências
históricas, positivas ou negativas, que ela viveu. O passado da Igreja
estrutura em larga medida o seu presente. A tradição doutrinal, litúrgica,
canónica, ascética alimenta a vida própria da comunidade crente,
oferecendo-lhe um incomparável mostruário de modelos a imitar. Ao longo de
toda a peregrinação terrena, no entanto, o grão bom permanece sempre misturado
com o joio, a santidade está lado a lado com a infidelidade e o pecado (cf. Mt
13,24-30.36-43).(13) E é assim que a recordação dos escândalos do passado pode
criar obstáculos ao testemunho da Igreja de hoje, e o reconhecimento dos erros
cometidos pelos filhos da Igreja de ontem pode favorecer a renovação e
reconciliação no presente.
A dificuldade que se apresenta é a de definir os erros passados, devido, antes
de mais, ao juízo histórico que isso exige, porque naquilo que aconteceu é
sempre distinta a responsabilidade ou a culpa que se pode atribuir aos membros
da Igreja enquanto crentes, daquilo que é relativo à sociedade dos séculos
chamados "de cristandade" ou às estruturas de poder nas quais o temporal e o
espiritual estavam então intimamente entrelaçados. Uma hermenêutica histórica
é, portanto, tanto mais necessária para fazer uma adequada distinção entre a
acção da Igreja enquanto comunidade de fé e a da sociedade, nas épocas de
osmose entre ambas.
Os passos dados por João Paulo II para pedir perdão pelos erros do passado
foram entendidos em inúmeros ambientes, eclesiais e não, como sinais de
vitalidade e autenticidade da Igreja, assim como para reforçar a sua
credibilidade. É justo, aliás, que a Igreja contribua para modificar imagens
de si falsas e inaceitáveis, particularmente em domínios em que, por
ignorância ou má-fé, alguns sectores de opinião se comprazem em identificá-la
com o obscurantismo ou a intolerância. Os pedidos de perdão formulados pelo
Papa também suscitaram um estímulo positivo no âmbito eclesial e para lá dele.
Chefes de Estado ou de governo, sociedades privadas e públicas, comunidades
religiosas pedem actualmente perdão por episódios ou períodos históricos
assinalados por injustiças. Esta prática é tudo menos retórica, tanto que
alguns hesitam em dar-lhe acolhimento, calculando os custos consequentes -
entre outros no plano judicial - a um reconhecimento de solidariedade com
erros passados. Também deste ponto de vista, é urgente, pois, um rigoroso
discernimento.
Não faltam, todavia, fiéis desconcertados, porquanto a sua fidelidade à Igreja
parece ficar abalada. Alguns interrogam-se como transmitir o amor da Igreja às
jovens gerações se essa mesma Igreja é acusada de crimes e pecados. Outros
observam que o reconhecimento dos erros é no mais das vezes unilateral e é
explorado pelos detractores da Igreja, satisfeitos por a verem confirmar
preconceitos que têm a seu respeito. Outros, ainda, chamam a atenção para o
perigo de se culpabilizarem arbitrariamente as actuais gerações de crentes por
faltas a que não deram a sua anuência de modo nenhum, embora se declarem
prontos a assumir a sua responsabilidade na medida em que grupos humanos se
sintam ainda hoje tocados pelas consequências de injustiças cometidas pelos
seus predecessores noutros tempos. Alguns, também, julgam que a Igreja poderá
purificar a sua memória a respeito dos actos ambíguos nos quais esteve
implicada no passado, simplesmente tomando parte no trabalho crítico sobre a
memória desenvolvido na nossa sociedade. Desse modo, ela poderia afirmar que
partilha com os seus contemporâneos a recusa daquilo que a consciência moral
actual reprova, sem se propor como única culpada e responsável dos males do
passado, e procurando, ao mesmo tempo, o diálogo no recíproco entendimento com
quantos se sintam ainda hoje feridos por actos passados imputáveis aos filhos
da Igreja. Por fim, deve esperar-se que alguns grupos possam reclamar um
pedido de perdão nos seus confrontos, ou por analogia com outros ou porque
julgam ter sofrido injustiças. Em todo o caso, a purificação da memória não
poderá de modo algum significar que a Igreja renuncie a proclamar a verdade
revelada que lhe foi confiada, quer no campo da fé quer no da moral.
Apresentam-se, assim, diversas interrogações: pode-se investir a consciência
actual de uma "culpa" associada a fenómenos históricos irrepetíveis, como as
cruzadas ou a inquisição? Não é mesmo demasiado fácil julgar os protagonistas
do passado com a consciência actual (como faziam os escribas e fariseus,
segundo Mt 23,29-32), como se a consciência moral não estivesse situada no
tempo? E, por outro lado, pode porventura negar-se que o juízo ético está
sempre em jogo, pelo simples facto de que a verdade de Deus e suas exigências
morais têm valor permanente? Qualquer que seja a atitude a adoptar, ela deverá
ter em conta estas questões, e procurar respostas que sejam fundadas na
revelação e na sua transmissão viva na fé da Igreja. A questão prioritária é,
assim, a de esclarecer em que medida os pedidos de perdão pelos erros do
passado, sobretudo se dirigidos a grupos humanos de hoje, se situam no
horizonte bíblico e teológico da reconciliação com Deus e com o próximo.
2. ASPECTOS BÍBLICOS
É possível desenvolver de vários modos uma pesquisa sobre o reconhecimento que
Israel faz das suas faltas no Antigo Testamento e acerca do tema da confissão
das culpas tal como se apresenta nas tradições do Novo Testamento.(14) A
natureza teológica da reflexão aqui conduzida leva a privilegiar uma
aproximação de género prevalentemente temático, partindo da seguinte questão:
que penhor oferece o testemunho da Sagrada Escritura ao convite que João Paulo
II faz à Igreja para confessar os erros do passado?
2.1. Antigo Testamento
Confissões de pecados associadas a pedidos de perdão encontram-se em toda a
Bíblia, tanto nas narrativas do Antigo Testamento, como nos Salmos, nos
Profetas e nos Evangelhos, assim como - mais esporadicamente - na literatura
sapiencial e nas cartas do Novo Testamento. Dada a abundância e difusão destes
testemunhos, coloca-se a questão de saber como seleccionar e catalogar um
conjunto de textos significativos. Pode-se interrogar a esse respeito os
textos bíblicos relativos à confissão dos pecados: quem confessa o quê (e que
tipo de erro) a quem? Colocar deste modo a questão ajuda a distinguir duas
categorias principais de "textos de confissão", cada um dos quais
compreendendo diversas subcategorias: a) textos de confissão de pecados
individuais e b) textos de confissão de pecados de todo o povo (e dos seus
antepassados). Em relação à recente prática eclesial que determina a nossa
pesquisa é conveniente restringir a análise à segunda categoria.
Nela podem-se identificar diversas possibilidades, conforme quem faz a
confissão dos pecados do povo e quem é associado pelo menos à culpa colectiva,
prescindindo da presença da consciência de uma responsabilidade pessoal
(amadurecida apenas progressivamente: cf. Ez 14,12-23; 18,1-32; 33,10-20). Na
base destes critérios podem distinguir-se os seguintes casos, aliás com uma
certa fluidez:
- Uma primeira série de textos representa o povo inteiro (por vezes
personificado num simples "Eu") que, num particular momento da sua história,
confessa ou alude aos seus pecados contra Deus sem qualquer referência
(explícita) aos erros das gerações precedentes.(15)
- Um outro grupo de textos coloca a confissão - dirigida a Deus - dos pecados
actuais do povo nos lábios de um ou mais chefes (religiosos) que possam pelo
menos ser incluídos explicitamente no povo pecador para quem pregam.(16)
- Um terceiro grupo de textos apresenta o povo ou um dos seus chefes no acto
de evocar os pecados dos antepassados, sem contudo mencionar os da geração
presente.(17)
- Mais frequentemente, as confissões que mencionam os erros dos antepassados
associam-nos expressamente aos pecados da geração presente.(18)
Dos testemunhos recolhidos resulta que, em todos os casos em que são
mencionados os "pecados dos pais", a confissão é unicamente dirigida a Deus e
os pecados confessados pelo povo ou ao povo são os cometidos directamente
contra Ele, mais do que os cometidos (também) contra outros seres humanos (só
em Nm 21,7 se faz referência a alguém humano lesado, Moisés).(19) Surge a
questão por que razão os escritores bíblicos não sentiram necessidade de
pedidos de perdão dirigidos a interlocutores presentes a respeito de erros
cometidos pelos pais, apesar do seu forte sentido de solidariedade entre
gerações no bem e no mal (pense-se na noção de "personalidade corporativa").
Poder-se-iam avançar várias hipóteses em resposta a esta questão. Há, antes de
mais, o difuso teocentrismo da Bíblia, que dá a precedência ao reconhecimento
quer individual quer nacional dos pecados cometidos contra Deus. Demais, actos
de violência perpretados por Israel contra outros povos, que pareceriam exigir
um pedido de perdão àqueles mesmos povos ou aos seus descendentes, são
entendidos como execução de directivas divinas a respeito deles, como p. ex.
Js 2-11 e Dt 7,2 (o extermínio dos cananeus), ou 1Sam 15 e Dt 25,19 (a
destruição dos amalecitas). Em tais casos, o mandato divino implicado parece
excluir qualquer possibilidade de pedido de perdão a fazer.(20) As
experiências de maus tratos sofridas por Israel, por parte de outros povos, e
a animosidade assim suscitada poderiam também ter militado contra a ideia de
pedir perdão a esses povos pelos males por eles trazidos.(21)
De qualquer modo, permanece relevante, no testemunho bíblico, o sentido da
solidariedade intergeracional no pecado (e na graça), que se exprime na
confissão diante Deus dos "pecados dos antepassados", tanto que João Paulo II
pôde afirmar, citando a extraordinária oração de Azarias: " 'Bendito e louvado
sejas, Senhor, Deus dos nossos pais […] pecámos, prevaricámos, afastámo-nos de
Ti; em tudo temos procedido mal; e não observámos os teus mandamentos. (Dn
3,26.29).' Assim rezavam os hebreus depois do exílio (cf. também Bar 2,11-13),
carregando o peso dos erros cometidos por seus pais. A Igreja imita o seu
exemplo e pede perdão pelos pecados igualmente históricos de seus filhos."(22)
2.2. Novo Testamento
Um tema fundamental, relacionado com a ideia de culpa e largamente presente no
Novo Testamento, é a da absoluta santidade de Deus. O Deus de Jesus é o Deus
de Israel (cf. Jo 4,22), invocado como "Pai santo" (Jo 17,11), chamado "o
Santo" em 1Jo 2,20 (cf. Ap 6,10). A tripla proclamação de Deus como "santo" de
Is 6,3 regressa em Ap 4,8, enquanto 1Pd 1,16 insiste no facto de que os
cristãos devem ser santos "pois está escrito: Sede santos, porque Eu sou
santo' " (cf. Lv 11,44-45; 19,2). Tudo isto reflecte a noção
veterotestamentária da absoluta santidade de Deus. Contudo, para a fé cristã,
a santidade divina entrou na história na pessoa de Jesus de Nazaré: a noção
veterotestamentária não foi abandonada, mas é desenvolvida no sentido de que a
santidade de Deus se torna presente na santidade do Filho incarnado (cf. Mc
1,24; Lc 1,35; 4,34; Jo 6,69; Act 3,14; 4,27.30; Ap 3,7); e a santidade do
Filho é dada a participar aos "seus" (cf. Jo 17,16-19), tornados filhos no
Filho (cf. Gl 4,4-6; Rm 8,14-17). Não pode, porém, haver qualquer aspiração à
filiação divina em Jesus enquanto não houver amor ao próximo (cf. Mc 12,29-31;
Mt 22,37-38; Lc 10,27-28).
Este motivo, decisivo no ensinamento de Jesus, torna-se o "mandamento novo" no
Evangelho de João: os discípulos deverão amar como Ele amou (cf. Jo 13,34-35;
15,12.17), isto é, perfeitamente, "até ao fim" (Jo 13,1). O cristão é chamado
a amar e a perdoar segundo uma medida que transcende toda a medida humana de
justiça, e produz uma reciprocidade entre os seres humanos, que reflecte a que
existe entre Jesus e o Pai (cf. Jo 13,34s; 15.1-11; 17,21-26). Nesta
perspectiva, é dado grande relevo ao tema da reconciliação e do perdão das
ofensas. Aos seus discípulos, Jesus pede que estejam sempre prontos a perdoar
quantos os ofenderam, assim como o próprio Deus oferece sempre o Seu perdão:
"Perdoa-nos as nossas ofensas, como nós perdoamos aos que nos ofenderam." (Mt
6,12.15) Quem está em posição de perdoar ao próximo mostra ter compreendido a
necessidade que pessoalmente tem do perdão de Deus. O discípulo é convidado a
perdoar "até setenta vezes sete" quem o ofende, mesmo que este não tenha
pedido perdão (cf. Mt 18, 21-22).
Jesus insiste na atitude exigida à pessoa ofendida nos confrontos com os seus
ofensores: ela é chamada a dar o primeiro passo, anulando a ofensa mediante o
perdão oferecido "de coração" (cf. Mt 18,35; Mc 11,25), consciente de ser ela
mesma pecadora diante de Deus que nunca recusa o perdão pedido com
sinceridade. Em Mt 5, 23-24, Jesus pede ao ofensor que vá "reconciliar-se com
o irmão que tenha alguma coisa contra ele" antes de apresentar a sua oferta
sobre o altar: não agrada a Deus o acto de culto de quem não queira primeiro
reparar o dano causado ao próprio próximo. Aquilo que conta é transformar o
próprio coração e mostrar de modo adequado que se quer realmente a
reconciliação. De qualquer modo, o pecador, na consciência de que os seus
pecados ferem ao mesmo tempo a sua relação com Deus e com o seu próximo (cf.
Lc 15,21), pode esperar apenas o perdão de Deus, porque só Deus é sempre
misericordioso e pronto a apagar os pecados. É este também o significado do
sacrifício de Cristo que, de uma vez por todas, nos purificou dos nossos
pecados (cf. Hb 9,22; 10,18). Desta maneira, o ofensor e o ofendido são
reconciliados por Deus na Sua misericórdia que a todos acolhe e perdoa.
Neste quadro, que poderia ser ampliado mediante a análise das cartas de Paulo
e das epístolas católicas, não há qualquer indício de que a Igreja das origens
tenha voltado a sua atenção para os pecados passados para pedir perdão. Isso
pode ser explicado pela forte consciência da novidade cristã, que projecta a
comunidade mais para o futuro que para o passado. Encontra-se, contudo, uma
mais ampla e subtil insistência que domina o Novo Testamento: nos Evangelhos e
nas cartas, a ambivalência própria da esperança cristã é amplamente
reconhecida. Para Paulo, p. ex., a comunidade cristã é um povo escatológico
que vive já a "nova criação" (cf. 2Co 5,17; Gl 6.15), mas esta experiência,
tornada possível pela morte e ressurreição de Jesus (cf. Rm 3,21-26; 5,6-11;
8,1-11; 1Co 15,54-57), não nos liberta da inclinação para o pecado, presente
no mundo por causa da queda de Adão. Como resultado da intervenção de Deus
nela, e através da morte e ressurreição de Jesus, são agora dois os cenários
possíveis: a história de Adão e a de Cristo. Elas decorrem lado a lado, e o
crente deve contar com a morte e ressurreição do Senhor Jesus (cf., p. ex., Rm
6,1-11; Gl 3,27-28; Cl 3,10; 2Co 5,14-15) para ser parte da história em que
"superabunda a graça" (cf. Rm 5,12-21).
Uma semelhante releitura teológica do acontecimento pascal de Cristo mostra
como a Igreja nascente tinha uma aguda consciência das possíveis faltas dos
baptizados. Poder-se-ia dizer que o inteiro corpus paulinum chama os crentes a
um reconhecimento pleno da sua dignidade, mas na viva consciência da
fragilidade da sua condição humana: "Foi para a liberdade que Cristo nos
libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da
escravidão." (Gl 5,1) Um motivo análogo pode encontrar-se nas narrativas dos
Evangelhos. Emerge incisivamente em Marcos, onde as faltas dos discípulos de
Jesus são um dos temas dominantes da narrativa (cf. Mc 4,40-41; 6,36-37,
51-52; 8,14-21, 31-33; 9,5-6, 32-41; 10,32-45; 14,10-11, 17-21, 27-31, 50;
16,8).
Não há, todavia, nenhum explícito chamamento endereçado aos primeiros cristãos
para confessarem os erros do passado, embora seja sem dúvida muito
significativo o reconhecimento da realidade do pecado e do mal também entre o
povo chamado à existência escatológica própria da condição cristã (pense-se
apenas nas repreensões contidas nas cartas às sete Igrejas do Apocalipse).
Segundo a petição que se encontra na oração do Senhor, este povo invoca:
"Perdoa-nos os nossos pecados, assim como nós perdoamos aos que nos
ofenderam." (Lc 11,4; cf. Mt 6,12) Em suma, os primeiros cristãos mostram
estar bem conscientes de poder agir de maneira que não corresponda à vocação
recebida, não vivendo o baptismo da morte e ressurreição de Jesus em que foram
baptizados.
2.3. Jubileu bíblico
Um significativo antecedente bíblico da reconciliação ligada à superação de
situações passadas é representado pela celebração do Jubileu, tal como está
regulada no livro do Levítico (cap. 25). Numa estrutura social composta por
tribos, clãs e famílias, inevitavelmente se criavam situações de desordem
quando indivíduos ou famílias em condições difíceis tinham de "resgatar-se" a
si mesmas das próprias dificuldades, entregando a posse das terras ou casa, ou
de servos ou filhos, àqueles que se encontravam em melhores condições que as
suas. Semelhante sistema tinha como efeito que alguns israelitas acabavam por
sofrer intoleráveis situações de dívidas, pobreza e escravidão, naquela mesma
terra que lhes havia sido dada por Deus, em proveito de outros filhos de
Israel. Tudo isto podia levar a que, por períodos mais ou menos longos de
tempo, um território ou um clã caísse nas mãos de poucos ricos, enquanto o
resto das famílias do clã acabava por se encontrar numa dada forma de dívida
ou de servidão, como a de viver em total dependência dos mais abastados.
A legislação de Lv 25 constitui uma tentativa de inverter tudo isto (de tal
modo que se pode duvidar que alguma vez tenha sido plenamente posta em
prática!). Convocava a celebração do Jubileu, de 50 em 50 anos, a fim de
preservar o tecido social do povo de Deus e restituir a independência mesmo à
mais pequena família do país. É decisiva para Lv 25 a regular repetição da
confissão de fé de Israel no Deus que libertou o Seu povo mediante o Êxodo:
"Eu sou o Senhor, vosso Deus, que vos fez sair da terra do Egipto, para vos
dar a de Canaã, a fim de ser o vosso Deus." (Lv 25,38; cf. vv. 42, 45) A
celebração do Jubileu era uma implícita admissão de culpa e uma tentativa de
restabelecer uma ordem justa. Todo o sistema que alienasse um qualquer
israelita, outrora escravo mas agora libertado pelo braço poderoso de Deus,
vinha de facto desmentir a acção salvífica divina no Êxodo e através dele.
A libertação das vítimas e dos que sofrem torna-se parte do mais amplo
programa dos profetas. O Dêutero-Isaías, nos Cânticos do Servo sofredor (Is
42,1-9; 49,1-6; 50,4-11; 52,13-53,12), desenvolve estas alusões à prática do
Jubileu com os temas do resgate e da liberdade, do regresso e da redenção. Is
58 é um ataque contra a observância ritual que não olhe à justiça social, é
uma exigência de libertação dos oprimidos (Is 58,6), centrada especificamente
nas obrigações de parentesco (v. 7). Mais claramente, Is 61 utiliza as imagens
do Jubileu para fazer o retrato do Ungido como arauto de Deus enviado para
"evangelizar" os pobres, proclamar a liberdade aos prisioneiros e anunciar o
ano da graça do Senhor. De modo significativo, é justamente este texto, com
uma alusão a Is 58,6, que Jesus usa para apresentar a missão da sua vida e do
seu ministério em Lc 4,17-21.
Conclusão
Do que foi dito, pode-se concluir que o apelo dirigido por João Paulo II à
Igreja para que marque o ano jubilar com uma admissão de culpa por todos os
sofrimentos e ofensas pelos quais os seus filhos foram responsáveis no passado
(cf. TMA 33-36), assim como a prática a ela associada, não tem uma
correspondência unívoca no testemunho bíblico. Contudo, ele está fundado em
quanto a Sagrada Escritura afirma a respeito da santidade de Deus, da
solidariedade intergeracional do Seu povo e do reconhecimento do seu ser
pecador. O apelo do Papa, além disso, apreende correctamente o espírito do
Jubileu bíblico, que pede sejam cumpridos actos com vista a restabelecer a
ordem do originário desígnio de Deus sobre a criação. Isso exige que a
proclamação do "hoje" do Jubileu, iniciada por Jesus (cf. Lc 4,21), seja
prosseguida na celebração jubilar da Sua Igreja. Esta singular experiência de
graça, além do mais, leva o inteiro povo de Deus, como cada um dos baptizados,
a tomar ainda maior consciência do mandato recebido do Senhor, de estarmos
sempre prontos a perdoar as ofensas recebidas.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA
"Assim, quando o segundo milénio já se encaminha para o seu termo, é justo que
a Igreja assuma com maior consciência o peso do pecado dos seus filhos,
recordando todas aquelas circunstâncias em que, no arco da história, eles se
afastaram do espírito de Cristo e do seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em
vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores da fé, o espectáculo de
modos de pensar e agir que eram verdadeiras formas de antitestemunho e de
escândalo. Embora sendo santa pela sua incorporação em Cristo, a Igreja não se
cansa de fazer penitência: ela reconhece sempre como próprios, diante de Deus
e dos homens, os filhos pecadores." (TMA 33) Estas palavras de João Paulo II
sublinham como a Igreja é tocada pelo pecado dos seus filhos: santa, enquanto
tornada tal pelo Pai mediante o sacrifício do Filho e o dom do Espírito, ela é
de certo modo também pecadora, porquanto assume realmente em si o pecado
daqueles que ela própria gerou no baptismo, tal como Jesus Cristo assumiu o
pecado do mundo (cf. Rm 8,3; 2Co 5,21; Gl 3,13; 1Pd 2,24).(23) Pertence,
aliás, à mais profunda autoconsciência eclesial existindo no tempo, a
convicção de que a Igreja não é só uma comunidade de eleitos mas tem no seu
seio os justos e os pecadores do presente, assim como os do passado, na
unidade do mistério que a constitui. De facto, na graça como na ferida do
pecado, os baptizados de hoje estão próximos e solidários dos de ontem. Por
isso se pode dizer que a Igreja - una no tempo e no espaço em Cristo e no
Espírito - é verdadeiramente "santa e simultaneamente sempre necessitada de
purificação" (LG 8). Deste paradoxo - característico do mistério eclesial -
nasce a interrogação sobre como se conciliam os dois aspectos: por um lado, a
afirmação de fé na santidade da Igreja e, por outro, a sua contínua
necessidade de penitência e purificação.
3.1. Mistério da Igreja
"A Igreja está na história mas, ao mesmo tempo, transcende-a. Apenas 'com os
olhos da fé' se pode divisar na sua realidade visível uma realidade
contemporaneamente espiritual, portadora da vida divina." (CIC 770) O conjunto
dos aspectos visíveis e históricos relaciona-se com o dom divino, do mesmo
modo que no Verbo de Deus incarnado a humanidade assumida é sinal e
instrumento do agir da Pessoa divina do Filho: as duas dimensões do ser
eclesial formam "uma única realidade complexa, formada pelo duplo elemento
humano e divino" (LG 8), numa comunhão que participa da vida trinitária e faz
com que os baptizados se sintam unidos entre si, mesmo na diversidade dos
tempos e dos lugares da história. Por força desta comunhão, a Igreja
apresenta-se como sujeito absolutamente único do acontecimento humano, de modo
a poder assumir os dons, os méritos e as culpas dos seus filhos actuais como
dos de ontem.
A não fraca analogia com o mistério do Verbo incarnado implica, todavia,
também uma fundamental diferença: "Enquanto Cristo, 'santo, inocente,
imaculado' (Hb 7,26), não conheceu o pecado (cf. 2Co 5,21) mas veio apenas
expiar os pecados do povo (cf. Hb 2,17), a Igreja, contendo pecadores no seu
próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação,
exercita continuamente a penitência e a renovação." (LG 8; cf. UR 3 e 6) A
ausência de pecado no Verbo incarnado não pode ser atribuída ao Seu Corpo
eclesial, no interior do qual, ao contrário, cada um - partícipe da graça dada
por Deus - nem por isso deixa de ter necessidade de vigilância e incessante
purificação e de estar solidário com a fraqueza dos outros: "Todos os membros
da Igreja, incluindo os seus ministros, devem reconhecer-se pecadores (cf. 1Jo
1,8-10). Em todos, até ao fim dos tempos, a cizânia do pecado se encontra
ainda misturada com o grão bom do Evangelho (cf. Mt 13,24-30). A Igreja reúne,
portanto, pecadores atingidos pela salvação de Cristo, mas sempre em vias de
santificação."(CIC 827)
Já Paulo VI havia solenemente afirmado que "a Igreja é santa, embora incluindo
no seu seio pecadores, já que ela não possui outra vida senão a da graça […]
Por isso, a Igreja sofre e faz penitência por tais pecados, dos quais, aliás,
ela tem o poder de curar os seus filhos com o sangue de Cristo e o dom do
Espírito Santo".(24) A Igreja é, em suma, no seu "mistério", encontro de
santidade e de fraqueza, continuamente redimida e sempre de novo necessitada
da força da redenção. Como ensina a liturgia, verdadeira lex credendi, o fiel
particular e o povo dos santos rogam a Deus que o Seu olhar se dirija à fé da
Sua Igreja e não aos pecados dos indivíduos que são a negação desta fé vivida:
Ne respicias peccata nostra, sed fidem Ecclesiae Tuae! Na unidade do mistério
eclesial através do tempo e do espaço, é possível agora considerar o aspecto
da santidade, a necessidade de arrependimento e reforma, e a sua articulação
no agir da Igreja Mãe.
3.2. Santidade da Igreja
A Igreja é santa porque, santificada por Cristo que a obteve entregando-se à
morte por ela, é mantida na santidade pelo Espírito Santo que a penetra
incessantemente: "Nós cremos que a Igreja é indefectivelmente santa. Com
efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito 'o único Santo',
amou a Igreja como esposa, entregou-se por ela, para a santificar (cf. Hb
5,25-26), e uniu-a a si como seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito
Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja são chamados à
santidade." (LG 39) Neste sentido, desde as origens os membros da Igreja são
chamados os "santos" (cf. Act 9,13; 1Co 6,1s; 16,1). Pode-se distinguir,
contudo, a santidade da Igreja da santidade na Igreja. A primeira - fundada na
missão do Filho e do Espírito - garante a continuidade da missão do povo de
Deus até ao fim dos tempos e estimula e ajuda os crentes a perseguir a
santidade subjectiva e pessoal. Na vocação que cada um recebe está, ao invés,
radicada a forma de santidade que lhe foi dada e que dele se exige, enquanto
pleno cumprimento da própria vocação e missão. A santidade pessoal é em todo o
caso projectada para Deus e para os outros e, por isso, tem um carácter
essencialmente social: é santidade "na Igreja", orientada ao bem de todos.
À santidade da Igreja deve, assim, corresponder a santidade na Igreja: "Os
seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não
por merecimento próprio mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo
Baptismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e,
por conseguinte, realmente santos. É necessário, portanto, que com o auxílio
divino conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade recebida." (LG 40) O
baptizado é chamado a tornar-se, em toda a sua existência, aquele em que se
transformou por força da consagração baptismal: e isso não acontece sem o
assentimento da sua liberdade e a ajuda da Graça que vem de Deus. Quando isso
acontece, a humanidade nova segundo Deus deixa-se reconhecer na história:
ninguém se torna tão plenamente ele mesmo quanto o santo que acolhe o plano
divino e, com a ajuda da graça, conforma todo o seu próprio ser ao projecto do
Altíssimo! Neste sentido, os santos como luzes suscitadas pelo Senhor no meio
da sua Igreja para a iluminar, são profecia para o mundo inteiro.
3.3. Necessidade de contínua renovação
Sem ofuscar esta santidade, deve reconhecer-se que, devido à presença do
pecado, existe a necessidade de contínua renovação e constante conversão no
povo de Deus: a Igreja na terra está "aureolada de uma santidade verdadeira"
embora "imperfeita" (LG 48). Observa St. Agostinho contra os pelagianos: "A
Igreja no seu conjunto afirma: Perdoai-nos os nossos pecados! Ela, portanto,
tem manchas e rugas. Mas, mediante a confissão as rugas são removidas,
mediante a confissão as manchas são lavadas. A Igreja está em oração para ser
purificada pela confissão, e enquanto os homens viverem na terra isto será
assim."(25) E S. Tomás de Aquino precisa que a plenitude da santidade pertence
ao tempo escatológico, enquanto a Igreja peregrinante não se deve enganar a si
mesma afirmando ser sem pecado: "Que a Igreja seja gloriosa, sem mácula nem
ruga, é o objectivo final para o qual tendemos em virtude da paixão de Cristo.
Isto apenas existirá, no entanto, na pátria eterna, e não já na peregrinação;
aqui […] enganar-nos-íamos se disséssemos não ter qualquer pecado."(26) De
facto, "embora revestidos da veste baptismal, não cessamos de pecar, de nos
afastarmos de Deus. Ora, com o pedido 'perdoai-nos os nossos pecados',
regressamos a Ele, como o filho pródigo (cf. Lc 15,11-32), e reconhecemo-nos
pecadores diante d'Ele, como o publicano (cf. Lc 18,13). O nosso pedido
inicia-se com a nossa 'confissão', com a qual confessamos a um tempo a nossa
miséria e a Sua misericórdia" (CIC 2839).
Por isso, é a Igreja inteira que, mediante a confissão dos pecados dos seus
filhos, confessa a sua fé em Deus e celebra a sua infinita bondade e
capacidade de perdão: graças ao vínculo estabelecido pelo Espírito Santo, a
comunhão que existe entre todos os baptizados no tempo e no espaço é tal, que
nela cada um é ele mesmo, mas ao mesmo tempo está condicionado pelos outros e
exerce neles uma influência no intercâmbio vital dos bens espirituais. Deste
modo, a santidade de uns influencia o crescimento no bem de outros, mas também
o pecado deixa de ter apenas relevância exclusivamente individual, pois pesa e
opõe resistência ao caminho da salvação de todos e, nesse sentido, toca
verdadeiramente a Igreja na sua totalidade, por meio da variedade dos tempos e
dos lugares. Esta convicção leva os Padres da Igreja a afirmações claras como
esta de St. Ambrósio: "Estamos bem atentos a que a nossa queda não se torne
uma ferida da Igreja."(27) Esta, sendo santa pela sua incorporação em Cristo,
não se cansa de fazer penitência; e reconhece sempre como seus, perante Deus e
os homens, os filhos pecadores" (TMA 33), os de hoje e os de ontem.
3.4. Maternidade da Igreja
A certeza de que a Igreja pode carregar o peso do pecado dos seus filhos por
força da solidariedade existente entre eles no tempo e no espaço, graças à sua
incorporação em Cristo e à obra do Espírito Santo, é expressa de modo
particularmente eficaz pela ideia de "Igreja Mãe" (Mater ecclesia), que "na
concepção protopatrística é o conceito central de todo o anseio cristão":(28)
a Igreja - afirma o Vaticano II -, "pela fiel recepção da Palavra de Deus,
torna-se ela própria mãe pois que pela pregação e o baptismo gera, para vida
nova e imortal, os filhos concebidos por acção do Espírito Santo e nascidos de
Deus" (LG 64). À vastíssima tradição de que estas ideias são eco, dá voz, p.
ex., St. Agostinho com as seguintes palavras: "Esta mãe santa digna de
veneração, a Igreja, é igual a Maria: ela dá à luz e é virgem, dela vós
nascestes e ela gera Cristo, pois vós sois os membros de Cristo."(29) S.
Cipriano de Cartago afirma claramente: "Não pode ter Deus por pai quem não tem
a Igreja como mãe."(30) E Paulino de Nola canta, deste modo, a maternidade da
Igreja: "Como mãe recebe a semente da Palavra eterna, traz os povos no seio e
dá-os à luz."(31)
Segundo esta perspectiva, a Igreja realiza-se continuamente no intercâmbio e
na comunicação do Espírito, dos crentes uns aos outros, como ambiente gerador
de fé e santidade na comunhão fraterna, na unanimidade orante, na participação
solidária da Cruz, no testemunho comum. Por força desta comunicação vital cada
baptizado pode ser considerado, ao mesmo tempo, filho da Igreja, enquanto
gerado nela para a vida divina, e Igreja Mãe, enquanto coopera com a sua fé e
caridade a gerar novos filhos para Deus: é tanto mais Igreja Mãe quanto maior
for a sua santidade, e mais ardente o esforço de comunicar aos outros o dom
recebido. Por outro lado, não deixa de ser filho da Igreja o baptizado que,
devido ao pecado, se separe dela pelo coração; ele poderá sempre de novo
aceder às fontes da graça e remover o peso que a sua culpa faz carregar à
inteira comunidade da Igreja Mãe. Esta, por sua vez, como verdadeira mãe, não
poderá deixar de ser ferida pelo pecado dos seus filhos de hoje como dos de
ontem, continuando sempre a amá-los, a ponto de carregar, em todos os tempos,
o peso produzido pelos seus pecados: enquanto tal, a Igreja aparece ao Pai
como Mãe das dores, não só por causa das perseguições de fora, mas sobretudo
pelas traições, as quedas, os atrasos e as corrupções dos seus filhos.
A santidade e o pecado na Igreja reflectem-se, assim, nos seus efeitos sobre
toda a Igreja, mesmo se é convicção da fé que a santidade é mais forte que o
pecado enquanto fruto da graça divina; disso são prova luminosa as figuras dos
santos, reconhecidos como modelo e ajuda para todos! Entre a graça e o pecado
não existe paralelismo, nem uma espécie de simetria ou de relação dialéctica;
a influência do mal não poderá nunca vencer a força da graça e a irradiação do
bem, mesmo o mais escondido! Neste sentido, a Igreja reconhece-se
existencialmente santa nos seus santos; mas, ao mesmo tempo que se regozija
desta santidade e dela sente o benefício, não deixa de se confessar pecadora,
não como sujeito do pecado mas enquanto assume com solidariedade materna o
peso das culpas dos seus filhos, para cooperar na sua superação pela via da
penitência e da novidade de vida. Por isso, a Igreja santa sente o dever "de
lastimar profundamente as fraquezas de tantos filhos seus que lhe deturparam o
rosto, impedindo-a de reflectir plenamente a imagem do seu Senhor crucificado,
testemunha insuperável de amor paciente e de humilde mansidão" (TMA 35).
Isto pode ser feito de modo particular por quem, pelo seu carisma e
ministério, exprima da forma mais densa a comunhão do povo de Deus: em nome
das Igrejas locais poderão dar voz a eventuais confissões de culpa e pedidos
de perdão os respectivos pastores; em nome de toda a Igreja, una no tempo e no
espaço, poderá pronunciar-se aquele que exerce o ministério universal de
unidade, o Bispo da Igreja "que preside no amor",(32) o Papa. Eis porque é
particularmente significativo que tenha vindo dele próprio o convite a que "a
Igreja tome a seu cargo, com a mais viva consciência, o pecado dos seus
filhos" e reconheça a necessidade de "emenda, invocando com força o perdão de
Cristo" (TMA 34).
4. JUÍZO HISTÓRICO E JUÍZO TEOLÓGICO
A determinação das culpas do passado que devemos reconhecer implica, antes de
mais, um correcto juízo histórico que esteja também na base da avaliação
teológica. Deve-se perguntar: Que aconteceu realmente? Que foi propriamente
dito e feito? Só quando for dada resposta adequada a estas questões, fruto de
rigoroso juízo histórico, se poderá também perguntar se o que aconteceu, o que
foi afirmado ou feito, pode ser interpretado como estando conforme ou não ao
Evangelho e, caso não esteja, se os filhos da Igreja que agiram desse modo,
poderiam ter-se dado conta disso a partir do contexto em que agiam. Apenas
quando se chega à certeza moral de que quanto foi feito contra o Evangelho por
alguns filhos da Igreja e em seu nome, poderia ter sido compreendido por eles
como tal e evitado, pode ter significado para a Igreja de hoje reconhecer os
erros do passado.
A relação entre "juízo histórico" e "juízo teológico" é, portanto, tão
complexa quanto necessária e determinante. Por isso, deve ser posta em prática
sem erros de uma e outra parte; é necessário evitar quer uma apologética que
queira tudo justificar, quer uma indevida culpabilização fundada na atribuição
de responsabilidade historicamente insustentável. João Paulo II, referindo-se
à avaliação histórico-teológica da acção da Inquisição, afirmou: "O magistério
eclesial não pode certamente propor-se levar a cabo um acto de natureza ética,
como é o pedido de perdão, sem primeiro estar rigorosamente informado acerca
da situação daquele tempo. Mas também não pode apoiar-se nas imagens do
passado veiculadas pela opinião pública, pois estão frequentemente
sobrecarregadas de uma emotividade passional que impede a diagnose serena e
objectiva […] Por isso, o primeiro passo consiste em interrogar os
historiadores, aos quais não é pedido um juízo de natureza ética - que
ultrapassaria o âmbito das suas competências -, mas, antes, que ajudem à
reconstrução o mais rigorosa possível dos acontecimentos, costumes e
mentalidade de então, à luz do contexto histórico da época."(33)
4.1. Interpretação da história
Quais são as condições de uma correcta interpretação do passado, na
perspectiva do saber histórico? Para as determinar, deve-se ter presente a
complexidade da relação que existe entre o sujeito que interpreta e o passado
objecto de interpretação;(34) em primeiro lugar, sublinhe-se o recíproco
alheamento entre eles. Acontecimentos ou palavras do passado são, antes de
mais, "passados"; como tal não são totalmente redutíveis às actuais
instâncias, mas têm uma espessura e complexidade objectivas que impedem que
deles se possa dispor de maneira apenas funcional aos interesses do presente.
Desse modo, é necessário aproximar-nos deles mediante uma pesquisa
histórico-crítica que vise utilizar todas as informações acessíveis, tendo em
vista a reconstrução do ambiente, dos modos de pensar, dos condicionamentos e
do processo vital em que aqueles acontecimentos e aquelas palavras estão
inseridos, para assim verificar os conteúdos e desafios que - justamente na
sua diversidade - eles propõem ao nosso presente.
Em segundo lugar, entre quem interpreta e o que é interpretado deve
reconhecer-se uma certa pertença comum, sem a qual nenhum laço e nenhuma
comunicação poderia subsistir entre passado e presente. Este laço comunicativo
funda-se no facto de que todo o ser humano de ontem e de hoje se situa num
complexo de relações históricas, e precisa, para o viver, da mediação
linguística, sempre historicamente determinada. Todos pertencemos à história!
Manifestar a compertença entre o intérprete e o objecto de interpretação - que
deve ser alcançado através das múltiplas formas como o passado deixou
testemunho (textos, monumentos, tradições, etc.) - significa avaliar a
correcção das possíveis correspondências e das eventuais dificuldades de
comunicação com o presente, resultantes da própria inteligência das palavras
ou dos acontecimentos passados; isso exige ter em conta as interrogações que
motivam a investigação, e sua incidência nas respostas obtidas, o contexto
vital em que se actua, e a comunidade interpretante cuja linguagem se fala e à
qual se pretende falar. Para este fim, é necessário tornar o mais possível
reflectida e consciente a pré-compreensão que, de facto, faz sempre parte de
toda a interpretação, para medir e temperar a sua real incidência no processo
interpretativo.
Por fim, entre quem interpreta e o passado objecto de interpretação dá-se, por
um esforço cognoscitivo e de avaliação, uma osmose ("fusão de horizontes"), na
qual consiste justamente o acto de compreensão. Nela se exprime aquela que se
julga ser a inteligência correcta dos acontecimentos ou das palavras do
passado; o que equivale a apreender o significado que podem ter para o
intérprete e o seu mundo. Graças a este encontro de mundos vitais, a
compreensão do passado traduz-se na sua aplicação ao presente; o passado é
tomado na potencialidade que manifesta, no estímulo que oferece para modificar
o presente. A memória torna-se capaz de suscitar um novo futuro.
Alcança-se a osmose fecunda com o passado por meio do entrelaçamento de
algumas operações hermenêuticas fundamentais, correspondentes aos momentos
indicados pelo alheamento, pela compertença e pela verdadeira e recta
compreensão. Em relação a um "texto" do passado - entendido em geral como
testemunho escrito, oral, monumental ou figurativo -, estas operações podem
ser expressas do seguinte modo: "1) Perceber o texto, 2) ajuizar da correcção
da própria inteligência do texto e 3) exprimir aquela que se julga ser a
inteligência correcta do texto."(35) Compreender o testemunho do passado
significa alcançá-lo o mais possível na sua objectividade, mediante todas as
fontes de que é possível dispor; ajuizar da correcção da própria
interpretação, quer dizer verificar com honestidade e rigor em que medida ela
pode ter sido orientada ou de algum modo condicionada pela pré-compreensão e
possíveis preconceitos do intérprete; exprimir a interpretação a que se chegou
equivale a tornar os outros participantes no diálogo entretecido com o
passado, quer para verificar a sua relevância quer para se expor ao confronto
com outras eventuais interpretações.
4.2. Investigação histórica e avaliação teológica
Se estas operações estão presentes em todo o acto hermenêutico, elas não podem
também faltar na interpretação em que juízo histórico e juízo teológico se
venham a integrar. Isso exige, primeiramente, que neste tipo de interpretação
se preste a máxima atenção aos elementos de diferenciação e alheamento entre
presente e passado. Em particular, quando se pretende ajuizar de possíveis
culpas do passado, deve ter-se presente que são diversos os tempos históricos,
diversos os tempos sociológicos e culturais do agir eclesial, pelo que
paradigmas e juízos próprios de uma sociedade e de uma época poderão ser
erroneamente aplicados na avaliação de outras fases da história, gerando não
poucos equívocos; diversas são as pessoas, as instituições e as suas
respectivas competências; diversas as formas de pensar e diversos os
condicionamentos. Deste modo, são precisadas as responsabilidades pelos
acontecimentos e pelas palavras ditas, tendo em conta que o facto de um pedido
de perdão da Igreja compromete o mesmo sujeito teológico - a Igreja - na
multiplicidade de modos e graus em que os indivíduos representam a comunidade
eclesial, e na diversidade de situações históricas e geográficas,
frequentemente muito diferentes entre si. Toda a generalização deve ser
evitada. Todas as eventuais declarações actuais devem ser situadas e devem ser
produzidas pelos sujeitos mais propriamente vocacionados para o fazer (Igreja
universal, episcopados nacionais, Igrejas particulares, etc.).
Em segundo lugar, a correlação de juízo histórico e juízo teológico deve ter
em conta o facto de que, para a interpretação da fé, o laço entre passado e
presente não é apenas motivado pelo interesse actual e pela comum pertença de
cada ser humano à história e suas mediações expressivas, mas se funda também
na acção unificadora do Espírito de Deus e na identidade permanente do
princípio constitutivo da comunhão dos crentes, que é a revelação. A Igreja -
por força da comunhão nela produzida pelo Espírito de Cristo no tempo e no
espaço - não pode deixar de reconhecer-se no seu princípio sobrenatural,
presente e operante em todos os tempos, enquanto sujeito de certa forma único,
chamado a responder ao dom de Deus em modos e situações diversas através das
escolhas dos seus filhos, mesmo com todas as carências que possam tê-las
caracterizado. A comunhão no único Espírito Santo funda também diacronicamente
uma comunhão dos "santos", por força da qual os baptizados de hoje se sentem
unidos aos baptizados de ontem, e, tal como beneficiam dos seus méritos e se
alimentam do seu testemunho de santidade, sentem-se também no dever de assumir
o eventual peso presente das suas culpas, depois de haver sido feito atento
discernimento histórico e teológico.
Devido a este fundamento objectivo e transcendente da comunhão do povo de Deus
nas suas múltiplas situações históricas, a interpretação crente reconhece ao
passado da Igreja um significado para o presente muito peculiar: o encontro
com ele, efectivado no acto da interpretação, pode revelar-se carregado de
particulares valências para o presente, rico de uma eficácia "performativa"
nem sempre previamente calculável. Naturalmente, a forte unidade do horizonte
hermenêutico e do sujeito eclesial interpretante expõe mais facilmente o olhar
teológico ao risco de ceder a leituras apologéticas ou instrumentais; é aqui
que o exercício hermenêutico dedicado a entender acontecimentos e palavras do
passado e a medir a correcção da sua interpretação para o presente é tanto
mais necessário. Com esse fim, a leitura crente servir-se-á de todos os
possíveis contributos oferecidos pelas ciências históricas e pelos métodos
interpretativos. O exercício da hermenêutica histórica não deverá, porém,
impedir a avaliação da fé de interpelar os textos segundo a peculiaridade que
a caracteriza e, portanto, fazendo interagir presente e passado na consciência
da fundamental unidade do sujeito eclesial neles implicado. Isto põe-nos de
sobreaviso contra todo o historicismo que relativize o peso das culpas
passadas e que considere que a história tudo justifica. Como observa João
Paulo II, "um correcto juízo histórico não pode prescindir da atenta
consideração dos condicionalismos culturais da época […] Mas a consideração
das circunstâncias atenuantes não exonera a Igreja do dever de lastimar
profundamente as fraquezas de tantos filhos seus." (TMA 35) A Igreja, em suma,
"não teme a verdade que emerge da história, e está pronta a reconhecer os
erros onde eles se verificaram, sobretudo quando se trata do respeito devido
às pessoas e às comunidades. Está disposta a desconfiar das sentenças
generalizadas de absolvição ou condenação relativas às várias épocas
históricas. Confia a investigação do passado à paciente e honesta reconstrução
científica, liberta de preconceitos de tipo confessional ou ideológico, quer
no que diz respeito às acusações que lhe são feitas quer às injustiças por ela
suportadas."(36) Os exemplos apresentados no capítulo seguinte poderão dar-nos
disso uma demonstração concreta.
5. DISCERNIMENTO ÉTICO
Para que a Igreja realize um apropriado exame de consciência histórico na
presença de Deus, com vista à própria renovação interior e ao crescimento na
graça e na santidade, é necessário que ela saiba reconhecer as "formas de
contratestemunho e escândalo" que se apresentam na sua história, em particular
durante este milénio. Não é possível cumprir tal tarefa sem estar consciente
da sua relevância moral e espiritual. Isso exige a definição de alguns termos
chave, além da formulação de algumas precisões necessárias no plano ético.
5.1. Alguns critérios éticos
No plano moral, o pedido de perdão pressupõe sempre uma admissão de
responsabilidade, precisamente da responsabilidade relativa a um erro cometido
contra outros. A responsabilidade moral normalmente refere-se à relação entre
a acção e a pessoa que a realiza; estabelece a pertença de um acto, a sua
atribuição a determinada pessoa ou a mais pessoas. A responsabilidade pode ser
objectiva ou subjectiva: a primeira refere-se ao valor moral do acto em si
mesmo enquanto bom ou mau e, portanto, à imputabilidade da acção; a segunda
diz respeito à efectiva percepção por parte da consciência individual da
bondade ou malícia do acto realizado. A responsabilidade subjectiva cessa com
a morte de quem realizou o acto, isto é, não se transmite por geração; por
isso, os descendentes não herdam a responsbilidade (subjectiva) dos actos dos
seus antepassados. Neste sentido, pedir perdão pressupõe uma contemporaneidade
entre aqueles que são ofendidos por uma acção e aqueles que a realizaram. A
única responsabilidade capaz de continuar na história só pode ser a de tipo
objectivo, à qual se pode sempre livremente aderir pelo menos subjectivamente.
Assim, o mal que foi feito frequentemente sobrevive a quem o praticou, através
das consequências dos comportamentos que podem tornar-se um fardo pesado na
consciência e memória dos descendentes.
Neste contexto, pode-se falar de uma solidariedade que une o passado e o
presente numa relação de reciprocidade. Em determinadas situações, o peso que
sobrecarrega a consciência pode ser de tal modo pesado que constitua uma
espécie de memória moral e religiosa do mal provocado, que, por sua natureza,
é uma memória colectiva. Ela testemunha de modo eloquente a solidariedade
existente entre aqueles que fizeram o mal no passado e os seus herdeiros no
presente. É então que se torna possível falar de responsabilidade comum
objectiva. Do peso de uma tal responsabilidade libertamo-nos, antes de mais,
implorando o perdão de Deus pelos erros do passado e, depois, quando for o
caso, através da "purificação da memória", culminando no perdão recíproco dos
pecados e ofensas no presente.
Purificar a memória significa eliminar da consciência pessoal e colectiva
todas as formas de ressentimento ou violência que a herança do passado aí
tenha deixado, na base de um novo e rigoroso juízo histórico-teológico que
funde um consequente e renovado comportamento moral. Isso acontece todas as
vezes que se atribui a actos históricos passados uma diferente qualidade,
comportando uma sua nova e diversa incidência no presente com vista ao
crescimento da reconciliação, na verdade, na justiça e na caridade entre os
seres humanos e, em particular, entre a Igreja e as diversas comunidades
religiosas, culturais ou civis com que tem relações. Modelos emblemáticos
desta incidência que um posterior juízo interpretativo autorizado pode ter na
inteira vida da Igreja, são a recepção dos concílios ou actos como a abolição
de recíprocos anátemas, o que exprime uma nova qualificação da história
passada de modo a produzir uma diversa caracterização das relações vividas no
presente. A memória das divisões e contraposições é purificada e substituída
por uma memória reconciliada, a que todos na Igreja são convidados a abrir-se
e a adequar-se.
A combinação de juízo histórico e juízo teológico no processo de interpretação
do passado salda-se aqui pelas repercussões éticas que pode ter no presente e
que implicam alguns princípios, correspondentes, no plano moral à fundação
hermenêutica da relação entre juízo histórico e juízo teológico. São os
seguintes:
a. O princípio de consciência. A consciência, quer enquanto "juízo moral" quer
enquanto "imperativo moral", constitui a avaliação última de um acto em
relação à sua bondade ou malícia perante Deus. Com efeito, só Deus conhece o
valor moral de cada acto humano, mesmo se a Igreja, como Jesus, pode e deve
classificar, julgar e por vezes condenar alguns tipos de acções (cf. Mt
18,15-18).
b. O princípio de historicidade. Justamente na medida em que cada acto humano
pertence a quem o pratica, toda a consciência individual e toda a sociedade
escolhe e age no interior de um determinado horizonte de tempo e espaço. Para
compreender verdadeiramente os actos humanos ou as dinâmicas a eles
associadas, devemos, por isso, entrar no mundo daqueles que os realizaram,
pois só assim poderemos chegar a conhecer as suas motivações e os seus
princípios morais. Esta afirmação é feita sem prejuízo da solidariedade que
liga os membros de uma comunidade específica no decurso do tempo.
c. O princípio de mudança de "paradigma". Enquanto antes do Iluminismo existia
uma espécie de osmose entre Igreja e Estado, entre fé e cultura, moralidade e
lei, a partir do sec. XVIII esta relação foi consideravelmente alterada. O
resultado foi a transição de uma sociedade sacral para uma sociedade
pluralista ou, como aconteceu em alguns casos, para uma sociedade secular. Os
modelos de pensamento e acção, os chamados "paradigmas" de actuação e
avaliação mudaram. Semelhante transição tem um impacto directo sobre os juízos
morais, mesmo se esta influência não justifica, de modo algum, uma ideia
relativista dos princípios morais ou da natureza da própria moralidade.
O inteiro processo de purificação da memória, porém, enquanto exige a correcta
combinação de avaliação histórica e olhar teológico, é vivido por parte dos
filhos da Igreja não só com o rigor que dê conta precisamente dos critérios e
princípios morais, mas também na contínua invocação da assistência do Espírito
Santo, para que não se caia no ressentimento ou na autoflagelação mas, ao
contrário, se chegue à confissão do Deus cuja "misericórdia se estende de
geração em geração" (Lc 1,50), que quer a vida e não a morte, o perdão e não a
condenação, o amor e não o temor. Saliente-se aqui o carácter de exemplaridade
que a honesta admissão dos erros passados pode exercer sobre a mentalidade na
Igreja e na sociedade civil, solicitando um renovado empenho de obediência à
Verdade, e de consequente respeito pela dignidade e os direitos dos outros,
sobretudo os mais fracos. Neste sentido, os inúmeros pedidos de perdão
formulados por João Paulo II constituem um exemplo, que põe em evidência um
bem e estimula à imitação, chamando os indivíduos e os povos a um exame de
consciência honesto e frutuoso tendo em vista os caminhos da reconciliação.
À luz destes esclarecimentos no plano ético, pode-se agora aprofundar alguns
exemplos - entre os mencionados pela carta apostólica Tertio millennio
adveniente (cf. 34-36) - de situações nas quais o comportamento dos filhos da
Igreja parece ter contrariado, de maneira relevante, o Evangelho de Jesus
Cristo.
5.2. A divisão dos cristãos
A unidade é a lei da vida do Deus trinitário, revelada ao mundo por seu Filho
(cf. Jo 17,21) que, pelo poder do Espírito Santo, amando até ao fim (Jo 13,1)
faz participar esta vida aos seus. Esta unidade deverá ser a fonte e a forma
da comunhão de vida da humanidade com o Deus trino. Se os cristãos viverem
nesta lei de amor recíproco, para serem um, "assim como o Pai e o Filho são
um", daí resultará que o "mundo acreditará que o Filho foi enviado pelo Pai"
(Jo 17,21), e "todos saberão que eles são seus discípulos" (Jo 13,35).
Infelizmente assim não aconteceu em particular no milénio que chega ao fim, no
qual surgiram grandes divisões entre os cristãos, em aberta contradição com a
vontade explícita de Cristo, como se Ele próprio estivesse dividido (cf. 1Co
1,13). O concílio Vaticano II ajuíza sobre este facto do seguinte modo: "Esta
divisão contradiz abertamente a vontade de Cristo e é escândalo para o mundo,
como também prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda a
criatura." (UR 1)
As principais cisões que durante este milénio "ferem a túnica inconsútil de
Cristo" (UR 13)37 são o cisma entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente no
início do milénio e, no Ocidente - quatro séculos depois -, a laceração
causada pelos acontecimentos "comummente conhecidos com o nome de Reforma" (UR
13). É verdade que "estas diversas divisões diferem muito entre si, não apenas
em razão da origem, lugar e tempo, mas principalmente pela natureza e
gravidade das questões relativas à fé e à estrutura da Igreja" (UR 13). No
cisma do sec. XI, factores culturais e históricos desempenharam papel
importante, ao passo que o aspecto doutrinal dizia respeito à autoridade da
Igreja e ao Bispo de Roma, assunto que naquele momento não havia alcançado a
clareza com que se apresenta hoje graças ao desenvolvimento doutrinal deste
milénio. Com a Reforma, ao contrário, outros domínios da revelação e da
doutrina foram objecto de controvérsia.
O caminho aberto para superar estas diferenças é o do diálogo doutrinal,
encorajado pelo amor recíproco. Comum a ambas as dilacerações parece ter sido
a falta de amor sobrenatural, de ágape. A partir do momento em que esta
caridade é o mandamento supremo do Evangelho, sem o qual tudo o resto é apenas
"bronze que soa ou címbalo que retine" (1Co 13,1), uma tal falta é tomada em
toda a sua seriedade diante do Ressuscitado, Senhor da Igreja e da história.
Devido ao reconhecimento desta falta, o Papa Paulo VI pediu perdão a Deus e
aos "irmãos separados" que se sentissem ofendidos "por nós" (Igreja
católica).(38)
Em 1965, no clima criado pelo Concílio Vaticano II, o Patriarca Atenágoras, no
seu diálogo com Paulo VI, salientou o tema da restauração (apokatástasis) do
amor recíproco, essencial após uma história tão carregada de contradições, de
mútua desconfiança e de antagonismos.(39) O que estava em jogo era um passado
ainda influente através da memória: os acontecimentos de 1965 (que culminaram
a 7 de Dezembro de 1965, com a abolição dos anátemas de 1054 entre Oriente e
Ocidente) representam uma confissão da culpa contida na anterior exclusão
recíproca, de modo a purificar a memória e a partir daí gerar uma nova. O
fundamento desta nova memória só pode ser o amor recíproco ou, melhor, o
renovado empenho em vivê-lo. É este o mandamento ante omnia (1Pd 4,8) para a
Igreja, quer no Oriente quer no Ocidente. De tal modo a memória liberta da
escravidão do passado e convida católicos e ortodoxos, assim como católicos e
protestantes, a serem os arquitectos de um futuro mais conforme ao mandamento
novo. O testemunho dado a esta nova memória pelo Papa Paulo VI e pelo
Patriarca Atenágoras é, neste sentido, exemplar.
Relativamente ao caminho em direcção à unidade dos cristãos, pode resultar
particularmente relevante a tentação de se ser guiado, ou até deteminado, por
factores culturais, condicionalismos históricos ou preconceitos, que alimentam
a separação e desconfiança recíproca entre cristãos, ainda que nada tenham a
ver com matérias de fé. Os filhos da Igreja devem examinar a sua consciência
com seriedade, para verem se estão activamente empenhados em obedecer ao
imperativo da unidade e se vivem a "conversão interior", "pois o desejo de
unidade nasce e amadurece a partir da renovação da mente, da abnegação de si
mesmo e da libérrima efusão da caridade" (UR 7). No tempo passado entre a
conclusão do Concílio e hoje, a resistência oposta à sua mensagem entristeceu
certamente o Espírito de Deus (cf. Ef 4,30). Na medida em que alguns católicos
se comprazem em permanecer associados às divisões do passado, nada fazendo
para remover os obstáculos que impedem a unidade, dever-se-ia justamente falar
de solidariedade no pecado da divisão (1Co 1,10-16). Neste contexto, podem ser
atendidas as palavras do Decreto sobre o Ecumenismo: "Pedimos humildemente
perdão a Deus e aos irmãos separados, assim como também nós perdoamos àqueles
que nos ofenderam." (UR 7)
5.3. Uso da violência ao serviço da verdade
Ao contratestemunho da divisão entre os cristãos é necessário acrescentar o
das várias ocasiões em que, ao longo deste milénio, foram empregues meios
duvidosos para atingir fins justos, que são quer a pregação do Evangelho quer
a defesa da unidade da fé: "Outro capítulo doloroso sobre o qual os filhos da
Igreja não podem deixar de reflectir, com espírito aberto ao arrependimento, é
a condescendência manifestada, especialmente nalguns séculos, perante métodos
de intolerância ou até mesmo de violência no serviço à verdade." (TMA 35)
Referem-se aqui as formas de evangelização que utilizaram instrumentos
impróprios para anunciar a verdade revelada, ou que não operaram um adequado
discernimento evangélico dos valores culturais dos povos, ou não respeitaram a
consciência das pessoas a quem a fé era apresentada, além das formas de
violência exercidas na repressão e correcção dos erros.
Análoga atenção é reservada às possíveis omissões das quais os filhos da
Igreja se tornaram responsáveis nas mais diversas situações da história,
respeitando à denúncia de injustiças e violências: "Há, depois, o falhado
discernimento de não poucos cristãos a respeito de situações de violação dos
direitos humanos fundamentais. O pedido de perdão é válido por tudo quanto foi
omitido ou calado, por fraqueza ou errada avaliação, pelo que foi feito ou
dito de modo indeciso ou pouco idóneo."(40)
Como sempre, é decisivo estabelecer, mediante a investigação
histórico-crítica, a verdade histórica. Estabelecidos os factos, será
necessário avaliar o seu valor espiritual e moral, como também o seu
significado objectivo. Só assim será possível evitar toda a espécie de memória
mítica e aceder a uma justa memória crítica, capaz - à luz da fé - de produzir
frutos de conversão e renovação: "Desses momentos dolorosos do passado deriva
uma lição para o futuro, que deve induzir todo o cristão a manter-se bem firme
sobre aquela regra áurea ditada pelo Concílio: 'A verdade não se impõe de
outro modo senão pela sua própria força que penetra nos espíritos de modo ao
mesmo tempo suave e forte' (DH 1)." (TMA 35)
5.4. Cristãos e judeus
Um dos domínios que exige particular exame de consciência é a relação entre
cristãos e judeus.(41) A relação da Igreja com o povo hebraico é diferente da
que tem com todas as outras religiões. (42) Contudo, "a história das relações
entre judeus e cristãos é uma história tormentosa […] Com efeito, o balanço
destas relações durante os dois milénios tem sido predominantemente
negativo".(43) A hostilidade ou a desconfiança de inúmeros cristãos para com
os hebreus ao longo dos tempos é um facto histórico doloroso e causa de
profundo pesar para os cristãos conscientes do facto de "que Jesus era um
descendente de David; que do povo hebraico nasceram a Virgem Maria e os
Apóstolos; que a Igreja é sustentada pelas raízes daquela boa oliveira em que
foram enxertados os ramos da oliveira brava dos gentios (cf. Rm 11,17-24); que
os judeus são nossos caros e amados irmãos e que, em certo sentido, são
verdadeiramente os "nossos irmãos mais velhos".(44)
A Shoah foi certamente resultado de uma ideologia pagã, como era o nazismo,
animada de um cruel anti-semitismo, a qual não só desprezava a fé mas também
negava a própria dignidade humana do povo hebraico. Contudo, "deve-se
perguntar se a perseguição do nazismo nos confrontos com os judeus não foi
facilitada por preconceitos antijudaicos presentes nas mentes e corações de
alguns cristãos […] Ofereceram os cristãos toda a assistência possível aos
perseguidos e, em particular, aos judeus?" (45) Sem dúvida que foram muitos os
cristãos que arriscaram a vida para salvar e assistir os judeus seus
conhecidos. Parece, porém, igualmente verdade que "ao lado destes corajosos
homens e mulheres, a resistência espiritual e a acção concreta de outros
cristãos não foi aquela que se poderia esperar de discípulos de Cristo".(46)
Este facto constitui um apelo à consciência de todos os cristãos, hoje,
exigindo "um acto de arrependimento (teshuva)",(47) e tornando-se um estímulo
a que redobrem os seus esforços para serem "transformados, adquirindo uma nova
mentalidade" (Rm 12,2) e para manterem uma "memória moral e religiosa" da
ferida infligida aos judeus. Nesta área, o muito que já foi feito poderá ser
consolidado e aprofundado.
5.5. A nossa responsabilidade pelos males de hoje
"A época actual, a par de muitas luzes, apresenta também muitas sombras." (TMA
36) Entre estas, pode-se assinalar em primeiro plano o fenómeno da negação de
Deus nas suas múltiplas formas. O que fere particularmente é ser esta negação,
em especial nos seus aspectos mais teóricos, um processo surgido no mundo
ocidental. Relacionado com o eclipse de Deus encontra-se, em seguida, uma
série de fenómenos negativos, como a indiferença religiosa, a difusa ausência
do sentido transcendente da vida humana, um clima de secularismo e relativismo
ético, a negação do direito à vida da criança não nascida, que chega a ser
sancionado nas legislações em favor do aborto, e uma grande indiferença
perante o grito dos pobres em vastos sectores da família humana.
A inquietante questão que se coloca é em que medida os crentes serão eles
mesmos responsáveis por estas formas de ateísmo, teórico e prático. A Gaudium
et spes responde com palavras cuidadosamente escolhidas: "Os próprios crentes,
muitas vezes, têm responsabilidade neste ponto. Com efeito, o ateísmo
considerado no seu conjunto não é um fenómeno originário, antes resulta de
várias causas, entre as quais se conta também a reacção crítica contra as
religiões e, nalguns países, principalmente contra a religião cristã. Pelo que
os crentes podem ter tido parte não pequena na génese deste ateísmo." (19)
A partir do momento em que o rosto autêntico de Deus foi revelado em Jesus
Cristo, aos cristãos é oferecida a graça incomensurável de conhecer este
Rosto: mas têm, igualmente, a responsabilidade de viverem de modo a manifestar
aos outros o verdadeiro Rosto do Deus vivo. São chamados a difundir no mundo a
verdade que "Deus é amor (ágape)" (1Jo 4,8.16). Porque Deus é amor, Ele é
Trindade de Pessoas, cuja vida consiste na recíproca comunicação infinita no
amor. Deste modo se conseguirá que a vida melhore, pois os cristãos difundem
que a verdade do Deus amor é o amor recíproco: "Por isto é que todos
conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros." (Jo
13,35) E isto até ao ponto de se poder dizer que muitas vezes os cristãos
"pela negligência na educação da sua fé, ou por exposições falaciosas da
doutrina, ou ainda pelas deficiências da sua vida religiosa, moral e social,
antes esconderam do que revelaram o autêntico rosto de Deus e da religião" (GS
19).
Sublinhe-se, por fim, que mencionar estas culpas dos cristãos do passado não é
apenas confessá-las a Cristo Salvador, mas também louvar o Senhor da história
pelo Seu amor misericordioso. Os cristãos, de facto, não crêem apenas na
existência do pecado, mas também e sobretudo no "perdão dos pecados". Além
disso, mencionar estas culpas quer dizer também afirmar a nossa solidariedade
com aqueles que no bem e no mal nos precederam na via da verdade, oferecer no
presente um forte motivo de conversão às exigências do Evangelho, e
proporcionar o necessário prelúdio ao pedido de perdão a Deus que abre caminho
à recíproca reconciliação.
6. PERSPECTIVAS PASTORAIS E MISSIONÁRIAS
À luz das considerações feitas, é possível agora perguntar: quais as
finalidades pastorais que levam a Igreja a assumir o peso das culpas,
cometidas no passado pelos seus filhos em seu nome, e a reconhecê-las como
tais? Quais as implicações desta atitude na vida do povo de Deus? E quais as
suas ressonâncias em relação à missão da Igreja e ao seu diálogo com as
diversas culturas e religiões?
6.1. Finalidades pastorais
Entre as múltiplas finalidades pastorais do reconhecimento dos erros do
passado, podem salientar-se as seguintes:
- em primeiro lugar, estes actos tendem à purificação da memória que, como foi
dito, é o processo de renovada avaliação do passado, capaz de uma não
desprezível incidência no presente, pois os pecados passados fazem, com
frequência, ainda sentir o seu peso e permanecem também hoje como outras
tantas tentações. Sobretudo se amadurecida no diálogo e na paciente procura da
reciprocidade com quem se possa sentir ofendido por acontecimentos ou palavras
do passado, a remoção da memória pessoal e colectiva de todas as causas de
possível ressentimento pelo mal sofrido e de toda a influência negativa
daquele facto, pode contribuir para fazer crescer a comunidade eclesial em
santidade, pela via da reconciliação e da paz na obediência à Verdade.
"Reconhecer as fraquezas de ontem - sublinha o Papa - é acto de lealdade e
coragem que ajuda a reforçar a nossa fé, tornando-nos atentos e prontos para
enfrentar as tentações e dificuldades de hoje." (TMA 33) É exactamente com tal
fim que a memória da culpa deve abranger todas as possíveis faltas cometidas,
mesmo se apenas algumas são hoje mais frequentemente mencionadas. De qualquer
modo, nunca se pode esquecer também o preço pago por tantos cristãos pela sua
fidelidade ao Evangelho e ao serviço do próximo na caridade.(48)
- Uma segunda finalidade pastoral, estreitamente ligada à anterior, pode ser
reconhecida na promoção da perene reforma do povo de Deus: "se, em vista das
circunstâncias das coisas e dos tempos houve deficiências, quer na moral, quer
na disciplina eclesiástica, quer também no modo de enunciar a doutrina - modo
que deve cuidadosamente distinguir-se do próprio depósito da fé - tudo seja
recta e devidamente restaurado no momento oportuno" (UR 6).(49) Todos os
baptizados são chamados a "examinar a sua fidelidade à vontade de Cristo
acerca da Igreja e, na medida da necessidade, empreender com vigor a obra de
renovação e reforma" (UR 4: opus renovationis nec non reformationis). O
critério da verdadeira reforma e da autêntica renovação só pode ser a
fidelidade à vontade de Deus respeitante ao Seu povo,(50) que supõe um esforço
sincero por libertar-se de tudo o que afasta dela, quer se trate de culpas
presentes quer diga respeito a heranças do passado.
- Uma ulterior finalidade pode ser vista no testemunho que, desse modo, a
Igreja dá do Deus da misericórdia e da Sua Verdade que liberta e salva, a
partir da experiência que d'Ele fez e faz na história; e no serviço que, desse
modo, presta nos confrontos da humanidade para contribuir à superação dos
males presentes. João Paulo II afirma que "um sério exame de consciência foi
desejado por numerosos cardeais e bispos, principalmente sobre a Igreja de
hoje. No limiar do novo milénio, os cristãos devem pôr-se humildemente diante
do Senhor, interrogando-se sobre as responsabilidades que lhes cabem também
nos males do nosso tempo" (TMA 36), e para contribuir, por consequência, ao
seu superamento na obediência ao esplendor da Verdade salvífica.
6.2. Implicações eclesiais
Que implicações tem um acto eclesial de pedido de perdão na vida da própria
Igreja? Emergem vários aspectos:
- Impõe-se, antes de mais, ter em conta os processos diversificados de
recepção dos actos de arrependimento eclesial, pois esses variam consoante os
contextos religiosos, culturais, políticos, sociais, pessoais, etc.. A esta
luz tome-se em consideração que acontecimentos ou palavras ligados a uma
história contextualizada não têm necessariamente alcance universal e,
vice-versa, que actos condicionados por determinada perspectiva teológica e
pastoral trouxeram consequências de grande peso na difusão do Evangelho
(pense-se, p. ex., nos vários modelos históricos da teologia da missão). Além
disso, tenha-se em conta a relação entre benefícios espirituais e possíveis
custos de semelhantes actos, considerando-se também as acentuações indevidas
que os media podem dar a alguns aspectos das declarações eclesiais; tenha-se
sempre presente o conselho do apóstolo Paulo de acolher, considerar e apoiar
com prudência e amor os "fracos na fé" (cf. Rm 14,1). Em particular, impõe-se
prestar atenção à história, à identidade e aos contextos das Igrejas orientais
e das Igrejas que actuam em continentes ou países em que a presença cristã é
largamente minoritária.
- É necessário precisar o sujeito adequado chamado a pronunciar-se em relação
a culpas passadas, quer se trate de pastores locais, pessoal ou colegialmente
considerados, quer se trate do Pastor universal, o Bispo de Roma. Nesta
perspectiva é oportuno ter em conta - no reconhecimento das culpas passadas e
dos agentes actuais que melhor poderão tomar isso a seu cargo - a distinção
entre Magistério e autoridade na Igreja. Nem todo o acto de autoridade tem
valor de Magistério, pelo que um comportamento contrário ao Evangelho da parte
de uma ou mais pessoas revestidas de autoridade não implica de per si um
envolvimento do carisma magisterial, confirmado pelo Senhor aos pastores da
Igreja, e não requer por consequência nenhum acto magisterial de reparação.
- Sublinhe-se que o destinatário de todo o possível pedido de perdão é Deus e
que eventuais destinatários humanos, sobretudo se colectivos, dentro ou fora
da comunidade eclesial, devem ser determinados com oportuno discernimento
histórico e teológico, quer para se realizarem convenientes actos de reparação
quer para se lhes testemunhar a boa vontade e o amor à verdade dos filhos da
Igreja. Isto será feito tanto melhor quanto mais diálogo houver e
reciprocidade entre as partes em causa num eventual caminho de reconciliação,
ligado ao reconhecimento das culpas e arrependimento por elas, sem ignorar que
a reciprocidade - por vezes impossível por causa das convicções religiosas do
interlocutor - não pode ser, todavia, considerada condição indispensável e que
a gratuidade do amor se exprime frequentemente numa iniciativa unilateral.
- Os eventuais gestos de reparação estão associados ao reconhecimento de uma
responsabilidade que perdura no tempo, e poderão tanto ter um carácter
simbólico-profético como um valor de efectiva reconciliação (p. ex., entre os
cristãos divididos). Também na definição destes actos é desejável uma procura
comum com os eventuais destinatários, ouvindo os legítimos pedidos que eles
possam apresentar.
- No plano pedagógico é oportuno evitar a perpetuação de imagens negativas do
outro, assim como activar processos de autoculpabilização indevida;
enfatizando que o carregar o fardo das culpas passadas é, para quem crê, um
modo de participação no mistério de Cristo crucificado e ressuscitado que
carregou as culpas de todos. Esta perspectiva pascal revela-se particularmente
apta a produzir frutos de libertação, reconciliação e alegria para todos
aqueles que, com fé viva, estão implicados no pedido de perdão, seja como
sujeitos seja como destinatários.
6.3. Implicações no plano do diálogo e da missão
São diversas as implicações previsíveis no plano do diálogo e da missão, em
consequência de um reconhecimento eclesial de culpas passadas:
- No plano missionário deve-se, antes de mais, evitar que actos semelhantes
contribuam para inibir o impulso da evangelização mediante o exacerbar dos
aspectos negativos. Do mesmo modo, deve-se tomar em consideração o facto de
que estes mesmos actos poderão fazer crescer a credibilidade da mensagem, se
nascerem da obediência à verdade e tenderem a dar efectivos frutos de
reconciliação. Em particular, os missionários ad gentes terão o cuidado de
contextualizar a proposta destes temas em relação à efectiva capacidade da sua
recepção nos ambientes em que trabalham (assim, p. ex., aspectos da história
da Igreja na Europa poderão ser pouco significativos para muitos povos não
europeus).
- No plano ecuménico, a finalidade de eventuais actos de eclesiais de
arrependimento só pode ser a unidade querida pelo Senhor. Nesta perspectiva é
tanto mais desejável que eles se efectuem na reciprocidade, mesmo que por
vezes gestos proféticos possam reclamar uma iniciativa unilateral e
absolutamente gratuita.
- No plano inter-religioso é oportuno salientar como, para os crentes em
Cristo, o reconhecimento das culpas passadas por parte da Igreja está conforme
às exigências da fidelidade ao Evangelho e, portanto, constitui um luminoso
testemunho da sua fé na verdade e na misericórdia do Deus revelado por Jesus.
Deve evitar-se que actos semelhantes sejam tomados equivocamente como
confirmação de eventuais preconceitos nos confrontos do cristianismo. Seria,
além disso, desejável que estes actos de arrependimento estimulassem também os
fiéis de outras religiões a reconhecerem as culpas do seu próprio passado. Tal
como a história da humanidade está cheia de violências, genocídios, violações
dos direitos humanos e dos povos, exploração dos mais fracos e divinização dos
poderosos, assim também a das várias religiões está coberta de intolerância,
superstição, conivência com poderes injustos e negação da dignidade e
liberdade das consciências. Os cristãos não foram excepção, e estão
conscientes de como todos são pecadores perante Deus!
- No diálogo com as culturas deve-se, antes de mais, ter presente a
complexidade e pluralidade das mentalidades com que se dialoga a respeito da
ideia de arrependimento e perdão. Em todo o caso, o facto de a Igreja assumir
as culpas do passado é esclarecido à luz da mensagem evangélica e, em
particular, da apresentação do Senhor crucificado, revelação da misericórdia e
fonte de perdão, para além da peculiar natureza da comunhão eclesial, una no
tempo e no espaço. Onde haja uma cultura de todo alheia à ideia de um pedido
de perdão, devem ser oportunamente apresentadas as razões teológicas e
espirituais que motivam este acto a partir da mensagem cristã, tendo em conta
o seu carácter crítico-profético. Sempre que se tenha de fazer face a uma
preconceituosa indiferença para com a palavra da fé, tome-se em consideração o
duplo efeito possível destes actos de arrependimento eclesial que se, por um
lado, podem confirmar preconceitos negativos ou atitudes de desprezo e
hostilidade, por outro, participam da misteriosa atracção característica do
"Deus crucificado".(51) Além disso, considere-se o facto de que no actual
contexto cultural, sobretudo no Ocidente, o convite à purificação da memória
envolve num comum empenhamento crentes e não crentes. Este empreendimento
comum constitui já testemunho positivo de docilidade à verdade.
- Em relação à sociedade civil, por fim, tenha-se em conta a diferença que
existe entre a Igreja, mistério de graça, e uma qualquer sociedade temporal;
mas não deve ser menos sublinhado o carácter de exemplaridade que o pedido
eclesial de perdão pode apresentar e o consequente estímulo que pode oferecer
a se efectuarem análogos passos de purificação da memória e reconciliação nas
mais diversas situações em que poderá ser reconhecida a sua urgência. Afirma
João Paulo II: "O pedido de perdão […] diz respeito, em primeiro lugar, à vida
da Igreja, à sua missão de anúncio da salvação, ao seu testemunho de Cristo,
ao seu empenhamento pela unidade, numa palavra, à coerência que deve marcar a
existência cristã. Mas, a luz e a força do Evangelho de que a Igreja vive, têm
a capacidade de iluminar e sustentar, como por superabundância, as escolhas e
acções da sociedade civil, no pleno respeito da sua autonomia […] No limiar do
terceiro milénio, é legítimo esperar que os responsáveis políticos e os povos,
sobretudo aqueles envolvidos em conflitos dramáticos, alimentados pelo ódio e
pela lembrança de feridas frequentemente antigas, se deixem guiar pelo
espírito de perdão e reconciliação de que a Igreja dá testemunho, e se
esforcem por resolver as oposições mediante um diálogo leal e aberto."(52)
CONCLUSÃO
A concluir a reflexão feita, é oportuno salientar, uma vez mais, como em todas
as formas de arrependimento pelas culpas do passado e em cada um dos gestos a
ele ligados, a Igreja se dirige antes de tudo a Deus, querendo glorificá-l'O e
à Sua misericórdia. Justamente desse modo ela sabe celebrar também a dignidade
da pessoa humana, chamada à plenitude da vida na aliança fiel com o Deus vivo:
"A glória de Deus é o homem vivo; a vida do homem é a visão de Deus."(53)
Agindo assim, a Igreja dá testemunho também da sua confiança no poder da
Verdade que nos torna livres (cf. Jo 8,32). O seu "pedido de perdão não deve
ser entendido como ostentação de dissimulada humildade, nem como negação da
sua história bimilenária, claramente rica de méritos nas áreas da caridade,
cultura e santidade. Ela responde, ao contrário, à irrenunciável exigência de
verdade a qual, a par dos aspectos positivos, reconhece os limites e as
fraquezas humanas das várias gerações de discípulos de Cristo".(54) E a
Verdade reconhecida é fonte de reconciliação e de paz, pois, como afirma o
mesmo Papa, "o amor da verdade, procurada com humildade, é um dos grandes
valores capazes de reunir os homens de hoje através das várias culturas".(55)
Também pela sua responsabilidade para com a Verdade, a Igreja "não pode
transpor o limiar do novo milénio sem incitar os seus filhos à purificação,
pelo arrependimento, dos erros, infidelidades, incoerências, atrasos.
Reconhecer as quedas de ontem é acto de lealdade e coragem" (TMA 33). O que
abre para todos um novo amanhã.
Siglas
AAS Acta Apostolicae Sedis
CIC Catecismo da Igreja Católica
CTI Comissão Teológica Internacional
DH Dignitatis humanae
GS Gaudium et spes
LG Lumen gentium
NA Nostra aetate
RP Reconciliatio et paenitentia
TMA Tertio millennio adveniente
UR Unitatis redintegratio
Notas
1. Incarnationis mysterium 11.
2. Ibid. Já em várias intervenções e, em particular, no n. 33 da carta
apostólica Tertio millennio adveniente (TMA), o Papa havia indicado à Igreja o
caminho a seguir para purificar a própria memória relativamente às culpas do
passado e para dar o exemplo de arrependimento aos indivíduos e às sociedades
civis.
3. Cf. Extravagantes communes, lib. V, tit. IX, c. 1 (A. Friedberg, Corpus
iuris canonici, t. II, c. 1304).
4. Cf. CLEMENTE XIV, Carta Salutis nostrae (30 de Abril de 1774), § 2.
5. Neste sentido vai a definição de indulgência que Clemente VI dá ao
instituir, em 1343, a periodicidade do jubileu de 50 em 50 anos. Clemente VI
vê no jubileu eclesial "o cumprimento espiritual" do "jubileu de remissão e
júbilo" do Antigo Testamento (Lv 25).
6. "Cada um de vós deve examinar em que é que caiu e examinar-se a si mesmo
mais rigorosamente de quanto o será por Deus no dia da Sua cólera", in:
Deutsche Reichstagsakten, n. série, III 390-399, Gotha 1893.
7. Cf. UR 6: "A Igreja peregrinante é chamada por Cristo a esta contínua
reforma de que ela própria, enquanto instituição humana e terrena, tem
permanente necessidade."
8. Cf. PAULO VI, carta apostólica Apostolorum limina (23 de Maio de 1974), in:
Enchiridion Vaticanum 5, 305.
9. PAULO VI, exortação Paterna cum benevolentia (8 de Dezembro de 1974), in:
Enchiridion Vaticanum 5, 526-553.
10. Cf. encíclica Ut unum sint (25 de Maio de 1995) n. 88: "Por aquilo de que
somos responsáveis, imploro perdão."
11. P. ex., o Papa "pede perdão, em nome de todos os católicos, pelos males
causados aos não-católicos ao longo da história" junto dos morávios (cf.
canonização de Jan Sarkander, na República Checa, em 21 de Maio de 1995).
Desejou cumprir um "acto de expiação" e pedir perdão aos índios da América
Latina e aos africanos deportados como escravos (Mensagem aos índios da
América, S. Domingo, 13 de Outubro 1992; Discurso na audiência geral de 21 de
Outubro de 1992). Dez anos antes havia já pedido perdão aos africanos pelo
tráfico de negros (Discurso em Yaoundé, 13 de Agosto de 1985).
12. Este último aspecto é aflorado na TMA apenas no n. 33, quando se diz que a
Igreja reconhece como seus os próprios filhos pecadores "perante Deus e
perante os homens".
13. St. AGOSTINHO, De civitate Dei I 35: CCL 47,33; XI 1: CCL 48,321; XIX 26:
CCL 48,696.
14. Sobre diversos métodos de leitura da Sagrada Escritura, cf. o documento da
PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA, A interpretação da Bíblia na Igreja, trad. port.
do Secretariado Geral do Episcopado, Lisboa: Rei dos Livros 1994.
15. Podem reconduzir-se a esta série, p. ex.: Dt 1,41 (a geração do deserto
reconhece ter pecado, recusando avançar para entrar na terra prometida); Jz
10,10.12 (no tempo dos juízes, o povo por duas vezes disse "pecámos" contra o
Senhor, referindo-se a terem servido os ídolos); 1Sm 7,6 (o povo do tempo de
Samuel afirma: "Pecámos contra o Senhor!"); Nm 21,7 (este texto distingue-se
porque aqui o povo da geração moisaica admite que, ao lamentar-se da
alimentação, se tornou culpado de "pecado" porque falou contra o Senhor e
também contra o seu guia humano, Moisés); 1Sm 12,19 (os israelitas do tempo de
Samuel reconhecem que - pedindo para terem um rei - juntaram este a "todos os
seus pecados"); Esd 10,13 (o povo reconhece perante Esdras ter grandemente
"pecado nesta matéria" [casando com mulheres estrangeiras]); Sl 65,2-2; 90,8;
103,10 (107, 10-11.17; Is 59, 9-15; 64, 5-9; Jer 8, 14; 14,7; Lam 1,14,18a.22
("Eu" = personificação de Jerusalém); 3, 42 (4, 13); Bar 4, 12-13 (Sião evoca
as culpas dos seus filhos que levaram à sua ruína); Ez 33,10; Miq 7,9
("Eu").18-19.
16. P. ex.: Ex 9,27 (o faraó diz a Moisés e a Aarão: "Desta vez pequei; o
Senhor é o justo, e eu e o meu povo somos os culpados"); 34,9 (Moisés diz:
"Perdoa a nossa iniquidade e os nossos pecados"); Lv 16,21 (o Sumo Sacerdote
confessa os pecados sobre a cabeça do "bode expiatório" no dia da expiação);
Ex 32,11-13 (cf. Dt 9,26-29: Moisés); 32,31 (Moisés); 1Rs 8,33ss (cf. 2Cro
6,22ss: Salomão reza para que Deus perdoe eventuais futuros pecados do povo);
2Cro 28,13 (os chefes dos israelitas afirmam: "A nossa culpa é já grande");
Esd 10,2 (Checarias diz a Esdras: " Pecámos contra o nosso Deus, tomando por
esposas mulheres estrangeiras"); Ne 1,5-11 (Neemias confessa os pecados
cometidos pelo povo de Israel, por si mesmo e pela casa de seu pai); Est 4,17
(Ester confessa: "E agora porque pecámos na Tua presença, entregaste-nos nas
mãos dos nossos inimigos, por termos adorado os seus deuses"); 2Mac 7,18.32
(os mártires judeus afirmam que sofrem por causa dos "nossos pecados" contra
Deus).
17. Entre os exemplos deste tipo de confissões nacionais, remete-se para 2Rs
22,13 (cf. 2Cro 34,21: Josias teme a cólera do Senhor "porque os nossos pais
não observaram a palavra do Senhor nem cumpriram tudo o que está escrito neste
livro"); 2Cro 29,6-7 (Ezequias afirma: "Os nossos pais foram infiéis"); Sl 78,
8ss (um "Eu" assume os pecados das gerações passadas, a partir do Êxodo). Cf.
o ditado popular citado em Jer 31,29 e Ez 18,2: "Os pais comeram uvas verdes,
e os dentes dos filhos é que ficaram embotados.").
18. É o caso de textos como os seguintes: Lv 26,40 (os exilados são chamados a
"confessar a sua iniquidade e a iniquidade de seus pais"); Esd 9,5b-15 (oração
penitencial de Esdras, v. 7: "Desde o tempo de nossos pais até ao dia de hoje,
temos sido gravemente culpados"; cf. Ne 9,6-37); Tb 3,1-5 (na sua oração,
Tobite invoca: "Não me castigues por causa dos meus pecados e dos meus erros,
nem pelos dos meus pais" [v. 3], e prossegue com a constatação: "não
observámos os teus mandamentos" [v. 5]); Sl 79,8-9 (esta lamentação colectiva
implora a Deus "não recordes contra nós as faltas dos nossos antepassados […]
salva-nos e perdoa os nossos pecados"); Sl 106,6 ("pecámos como os nossos
pais"); Jer 3,25 ("… pecámos contra o Senhor nosso Deus […] nós e nossos
pais"); Jer 14,19-22 ("conhecemos a nossa culpa e a iniquidade de nossos
pais", v. 20); Lam 5 ("Pecaram os nossos pais, mas já morreram", v. 7;
"desgraçados de nós porque pecámos", v. 16b); Bar 1,15-3,18 ("ofendemos o
Senhor" [1,17; cf. 1,19.21; 2,5.24]; "não recordar a iniquidade dos nossos
pais" [3,5; cf. 2,33; 3,4.7]; Dn 3,26-45 (a oração de Azarias: "é por efeito
dum juízo equitativo que nos infligiste tudo isto, por causa dos nossos
pecados", v. 28); Dn 9,4-19 ("pois é por causa dos nossos crimes e dos pecados
de nossos pais que Jerusalém […] está exposta aos insultos […]", v. 16).
19. Incluem falta de confiança em Deus (assim, p. ex., Dt 1,41; Nm 14,10),
idolatria (Jz 10,10-15), pedido para se ter um rei humano (1Sm 12,9),
casamentos com mulheres estrangeiras, em oposição à lei divina (Esd 9-10). Em
Is 59,13b, o povo diz: "Não temos falado senão de opressão e revolta, urdimos
dentro de nós palavras mentirosas."
20. Cf. o caso análogo do repúdio das mulheres estrangeiras por parte dos
judeus, narrado em Esd 9-10, com todas as consequências negativas que teve
sobre as mulheres implicadas. A questão de um pedido de perdão dirigido a elas
(e/ou aos seus descendentes) não se coloca propriamente, dado que o repúdio é
apresentado como uma exigência da lei divina (cf. Dt 7,3) em todos estes
capítulos.
21. Recorde-se, a este propósito, o caso das relações sempre tensas entre
Israel e Edom. Este povo - apesar da sua condição de "irmão" de Israel -
participou na queda de Jerusalém levada a cabo pelos babilónios e regozijou-se
com ela (cf. p. ex., Abd 10-14). Israel, ultrajado por esta traição, não
sentiu qualquer necessidade de pedir perdão pelo morticínio de prisioneiros
edomitas indefesos, perpetrado pelo rei Amacias, segundo 2Cro 25,12.
22. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2
Settembre 1999) 4.
23. Pense-se no motivo - presente em autores cristãos de diferentes épocas -
de censura à Igreja pelas suas culpas, de que é exemplo entre os mais
representativos o Liber asceticus de Máximo Confessor: PL 90, 912-956.
24. PAULO VI, Credo del popolo di Dio (30 Giugno 1968), n. 19, in: Enchiridion
Vaticanum 3, 264s.
25. St. AGOSTINHO, Sermo 181,5,7: PL 38, 982.
26. S. TOMÁS DE AQUINO, Summa Theologica III q.8 a.3 ad 2.
27. St. AMBRÓSIO, De virginitate 8,48: PL 16, 278D: "Caveamus igitur, ne
lapsus noster vulnus Ecclesiae fiat." Da "ferida" infligida à Igreja pelo
pecado dos seus filhos, fala também LG 11.
28. K. DELAHAYE, La comunità, madre dei credenti, Cassano M. (Bari) 1974, 110.
Cf., também, H. RAHNER, Mater Ecclesia. Inni di lode alla Chiesa tratti dal
primo millennio della letteratura cristiana, Milano 1972.
29. St. AGOSTINHO, Sermo 25,8: PL 46, 938: "Mater ista sancta, honorata,
Mariae similis, et parit et Virgo est. Ex illa nati estis et Christum parit:
nam membra Christi estis."
30. S. CIPRIANO, De Ecclesiae catholicae unitate 6: CCL 3, 253: "Habere iam
non potest Deum patrem qui ecclesiam non habet matrem." O mesmo S. Cipriano
afirmava noutro texto: "Ut habere quis possit Deum patrem, habeat ante
ecclesiam matrem" (Epist. 74,7: CCL 3C, 572). E St. Agostinho: "Tenete ergo,
carissimi, tenete omnes unanimiter Deum patrem, et matrem Ecclesiam" (In Ps
88, Sermo 2,14: CCL 39, 1244).
31. PAOLINO DI NOLA, Carmen 25, 171-172: CSEL 30, 243: "Inde manet mater
aeterni semine verbi / concipiens populos et pariter pariens."
32. St. INÁCIO DE ANTIOQUIA, Ad Romanos, Proem.: SCh 10,124 (Th. Camelot,
Paris 21958).
33. Discurso aos participantes no Simpósio Internacional do estudo sobre a
Inquisição, promovido pela Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do
Jubileu, n. 4, 31 de Outubro de 1998.
34. Para o que segue cf. H.-G. GADAMER, Verdade e Método, Petrópolis 1998.
35. B. LONERGAN, Il metodo in teologia, Brescia 1975, 173.
36. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2
Settembre 1999) 4.
37. A TMA 34 afirma que "mais ainda do que no primeiro milénio, a comunhão
eclesial conheceu dolorosas lacerações".
38. Cf. Discorso di apertura dalla Seconda Sessione del Concilio, del 29
Settembre 1964, in: Enchiridion Vaticanum 1 [106], n. 176.
39. Cf. a documentação do diálogo da caridade entre a Santa Sé e o Patriarcado
ecuménico de Constantinopla, in: Tómos Agápes: Vatican - Phanar (1958-1970),
Roma-Istambul 1971.
40. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2
Settembre 1999) 4.
41. O argumento é tratado de modo rigoroso na declaração Nostra aetate, do
Vaticano II.
42. Cf. JOÃO PAULO II, Discorso alla Sinagoga di Roma, 13 Aprile 1986, 4 in:
AAS 78 (1986) 1120.
43. Este é o juízo do recente documento da Comissão para as relações
religiosas com o judaísmo, Noi ricordiamo: una riflessione sulla Shoah, Roma
(16 Marzo 1998) 3.
44. Ibid. 7.
45. Ibid. 5.
46. Ibid. 6.
47. Ibid. 5.
48 Basta pensar no sinal do martírio: cf. TMA 37.
49. É o mesmo texto que afirma que "a Igreja peregrinante é chamada por Cristo
a esta contínua reforma (ad hanc perennem reformationem) de que ela mesma,
enquanto instituição humana e terrena, tem sempre necessidade".
50. Cf. UR 6: "Toda a renovação da Igreja consiste essencialmente numa maior
fidelidade à própria vocação."
51. A fórmula - particularmente forte - é de St. AGOSTINHO, De Trinitate I
13,28: CCL 50,69,13; Epist. 169,2: CSEL 44,617; Sermo 341A, 1: Misc. Agost.
314,22.
52. Discurso aos participantes no Simpósio Internacional do estudo sobre a
Inquisição, promovido pela Comissão Teológico-Histórica do Comité Central do
Jubileu, n. 5, 31 de Outubro de 1998.
53. "Gloria Dei vivens homo: vita autem hominis visio Dei", St. IRENEU DE
LYON, Adversus haereses IV 20, 7: SCh 100, t. II, 648.
54. JOÃO PAULO II, Discorso del 1 Settembre 1999, in: L'Osservatore Romano (2
Settembre 1999) 4.
55. Discorso al Centro Europeo per la ricerca nucleare, Ginevra (15 Giugno
1982), in: Insegnamenti di Giovanni Paolo II, V 2 Vaticano 1982, 2321.