Balanço das relações da Igreja Católica com as
Igrejas Ortodoxas
Pelo subsecretário do Conselho Pontifício para a Unidade dos Cristãos
Um dos elementos mais importantes do decreto «Unitatis Redintegratio» (UR)
--válido ainda aos 40 anos de sua promulgação--, é o das relações com as Igrejas
Ortodoxas. O Concílio exortou a todos, «mas especialmente a quem se propõe
trabalhar no restabelecimento da desejada plena comunhão entre as Igrejas
orientais e a Igreja Católica», a prestar «adequada consideração à especial
condição do nascimento e crescimento das Igrejas do Oriente e à natureza das
relações vigentes entre estas e a sede de Roma antes da separação» (UR, 14).
Seguindo esta indicação, estabeleceram-se relações, em tempos e modalidades
diversas, e o próprio diálogo teológico com todas as Igrejas do Oriente, com as
Igrejas Ortodoxas e as antigas Igrejas do Oriente. O Santo Padre fez uma
avaliação geral na encíclica «Ut Unum Sint» (UUS). Sobre o diálogo com as
Igrejas ortodoxas, escreveu: «Com espírito positivo, baseando-nos em tudo o que
temos em comum, a Comissão mista (de diálogo teológico) pôde progredir
substancialmente» (UUS, 59). Quanto ao diálogo que se leva a cabo com as Antigas
Igrejas do Oriente, afirmou: «Com respeito às tradicionais controvérsias sobre
cristologia, os contatos ecumênicos fizeram possíveis declarações essenciais
tais que nos permitem confessar juntos a fé que nos é comum» (UUS, 63).
Estas relações encontram ainda inspiração e orientação aos quarenta anos do
decreto UR, inclusive nas situações de novas possibilidades e de dificuldades
imprevistas.
1. O diálogo teológico com as Igrejas Ortodoxas, após um início positivo e
recolhidos seus resultados na encíclica UUS, nos últimos 15 anos, encontrou
sérias dificuldades e, desde a última sessão plenária (Baltimore, EUA, 2000),
não se puderam celebrar outros encontros. Naquela sessão, se discutiu o tema
«Implicações eclesiológicas e canônicas do “uniatismo”». Não se pôde traçar um
documento comum sobre o argumento. A sessão, contudo, sublinhou a necessidade da
continuação do diálogo e pôs de relevo um dado importante para este diálogo
teológico. Por ambas partes constatou-se que o nascimento das Igrejas orientais
católicas está intimamente ligado à questão do primado do bispo de Roma na
Igreja. A questão, portanto, deve ser enfrentada em relação com o maior problema
nas relações entre católicos e ortodoxos.
2. Sobre o «Primado Petrino», o Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos
(PCPUC) organizou um simpósio acadêmico, em meio de 2003, com relações paralelas
de católicos e ortodoxos, sobre quatro temas: a) O fundamento bíblico do
primado, b) O primado no pensamento dos Padres da Igreja, c) O papel do bispo de
Roma nos Concílios ecumênicos, d) As discussões recentes sobre o primado em
relação com o Concílio Vaticano I e sobre o primado entre os teólogos ortodoxos.
Não se tratava de um diálogo oficial, mas de um simpósio acadêmico com
características próprias. A busca da plena comunhão, contudo, enriquece-se com
todas as contribuições (relações fraternas, pesquisas nos institutos de
teologia, diálogo estruturado por meio de comissões mistas, oração, etc). As
Atas foram publicadas.
3. Nos últimos anos, intensificaram-se as relações com algumas Igrejas que, no
passado, haviam-se mostrado menos interessadas nas relações com a Igreja
Católica. Após a visita do Santo Padre a Atenas (2001), a Igreja da Grécia
enviou a Roma, pela primeira vez, uma delegação sinodal (8-13 de março de 2002).
Em resposta, a Igreja Católica enviou a Atenas (10-14 de fevereiro de 2003) uma
delegação, presidida pelo cardeal Kasper, e se instaurou uma ativa cooperação em
vários campos. As relações com a Igreja da Grécia seguem também outras vias.
Recordo uma: em 2003, celebrou-se em Joannina (Grécia) o VIII simpósio sobre a
«Espiritualidade no Oriente e Ocidente e as influências recíprocas», organizado
pela Faculdade teológica da Universidade de Tessalônica e pelo Ateneu
«Antonianum» de Roma.
4. O Santo Padre visitou a Bulgária em 2002 (23-26 de maio). O cardeal
presidente do PCPUC viajou ao país em outubro do mesmo ano (7-9 de outubro). A
um ano de distância da visita do Papa, uma delegação do Santo Sínodo de Sofia
visitou Roma (22-27 de maio de 2003). Naquela ocasião inaugurou-se o uso
litúrgico, por parte da Comunidade ortodoxa de Roma, da Igreja dos santos
Vicente e Anastásio, junto à Fonte de Trevi. A busca da comunhão implica
solidariedade e intercâmbio de dons.
5. O presidente do PCPUC visitou a Igreja da Sérvia (10-15 de maio de 2002). Uma
delegação do Santo Sínodo do Patriarcado da Sérvia devolveu a visita a Roma (3-8
de fevereiro de 2003). O Santo Sínodo daquela Igreja e a Conferência Episcopal
Católica do país celebram agora encontros com regularidade.
6. Após a visita do Santo Padre à Romênia (7-8 de maio de 1999) e a do Patriarca
Teoctist a Roma (7-13 de outubro de 2002) --eventos significativos das relações
fraternas, apesar dos problemas ainda abertos no país entre greco-católicos e
ortodoxos pela questão dos lugares de culto--, foi conferido ao presidente do
PCPUC um doutorado «Honoris causa» conjuntamente por quatro faculdades
teológicas de Cluj, a faculdade ortodoxa, a greco-católica, a católica latina e
a protestante.
7. Nos últimos anos, houve uma tensão entre o Patriarcado de Moscou e a Igreja
Católica. A Igreja russa rejeitava a Igreja Católica, a seu modo de ver, por
atos de proselitismo e novo impulso à prática do «uniatismo» na Ucrânia. Houve
várias iniciativas de esclarecimento. Foi importante a visita do cardeal Kasper
a Moscou em 2004 (17-23 de fevereiro). Foi instituído, portanto, um grupo
conjunto de trabalho entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, na Federação
russa, para a solução dos problemas práticos existentes entre as duas Igrejas
neste país. Posteriormente, o grupo manteve dois encontros, em maio e setembro
(2004).
8. O cardeal presidente do PCPUC visitou a Igreja Ortodoxa na Bielorússia (15-18
de dezembro de 2002) e iniciou com a mesma relação positiva.
9. Com as Antigas Igrejas do Oriente (copta, etíope, síria, armênia) em seu
conjunto, a partir dos acordos cristológicos e dos resultados dos diversos
diálogos bilaterais, iniciou-se um diálogo teológico oficial em 2002. A primeira
reunião da Comissão mista aconteceu no Cairo, em janeiro de 2004; a segunda
acontecerá em Roma, em janeiro de 2005.
10. Com a Igreja Assíria do Oriente constituiu-se uma Comissão mista de diálogo.
A próxima reunião acontecerá em Londres, de 18 a 24 de novembro. Serão
estudados, principalmente, dois temas: a tradição teológica da antiga Igreja da
Mesopotâmia e a eclesiologia de comunhão, segundo as tradições assíria e a
católica.
11. Com o Patriarcado de Constantinopla mantêm-se relações regulares e
freqüentes. Quando surgem dificuldades ou incompreensões resolvem-se
diretamente. O intercâmbio regular de delegações para a festa de Santo André ao
Fanar e dos Santos Pedro e Paulo em Roma oferece um instrumento útil de
conversações diretas. O Patriarca Ecumênico S. S. Bartolomeu I esteve em Roma
para a festa dos Santos Pedro e Paulo deste ano. Naquela ocasião, pediu ao Santo
Padre as relíquias de São João Crisóstomo e de São Gregório Nazianzeno,
patriarcas de Constantinopla, que se encontram na Basílica de São Pedro. Ao
final deste mês Sua Santidade Bartolomeu I virá a Roma para receber do Santo
Padre a doação das relíquias. Será a ocasião para um novo encontro.
Esta intensificação de contatos ajudará um novo início do diálogo teológico. O
decreto UR segue dando inspiração e orientações válidas.
[Tradução do original italiano realizada por Zenit]