INTERVENÇÃO DO CARDEAL PREFEITO DA CONGREGAÇÃO PARA AS IGREJAS ORIENTAIS SOBRE S. TOMÉ E S. FRANCISCO XAVIER
Queridos amigos
1. Durante anos tive o desejo de visitar a Índia. Trata-se de um país dotado de
um fascínio particular, e ainda mais para mim, pois sei que naquela grandiosa e
bonita nação vivem muitos dos meus irmãos e irmãs da Igreja síria: os fiéis
malabares e malancares.
As minhas visitas à Índia
Por este motivo, depois que fui eleito Patriarca de Antioquia dos Sírios,
aproveitei a oportunidade do primeiro convite para visitar a Índia, por ocasião
do Grande Jubileu do Ano 2000. Assim, pude constatar pessoalmente, que era ainda
mais interessante do que tinha imaginado. Depois, recebi o segundo convite, por
ocasião do encerramento do mesmo Jubileu. Porém, no dia 25 de Novembro de 2000,
o Santo Padre nomeou-me Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais. Desta
forma, pedi que me fosse concedida a possibilidade de adiar a minha vinda a
Roma, para poder realizar a segunda peregrinação à querida terra da Índia. Para
mim, a segunda visita foi outra possibilidade de conhecer a Igreja católica no
Querala, de modo particular a Igreja sírio-malabar, cujo Arcebispo-Mor tem a sua
sede em Ernakulam e Angamaly. Estas visitas inesquecíveis ofereceram-me o ensejo
de seguir os passos do Apóstolo S. Tomé e de S. Francisco Xavier, e pude ver
pessoalmente os frutos da sua pregação.
Por este motivo, sinto-me feliz e honrado de estar hoje aqui convosco, neste
ilustre Pontifício Instituto Oriental, para celebrar este duplo aniversário: o
1.950º aniversário da chegada do Apóstolo S. Tomé à Índia e o 450º aniversário
da morte de S. Francisco Xavier.
Nem o Apóstolo S. Tomé, nem S. Francisco Xavier eram naturais da Índia. Todavia,
ambos se tornaram indianos por convicção. Não se tratava de uma simples atracção
superficial, mas de uma autêntica abertura do espírito, que procura e instaura a
comunhão. Hoje, para nós, é importante pensar em S. Tomé e em S. Francisco
Xavier como em indianos por convicção, e não apenas como em cidadãos honorários,
precisamente como S. Paulo se tornou grego para os gregos, sem deixar de ser
judeu para os judeus. Os vínculos estreitos e, às vezes, exclusivos da
nacionalidade deviam ser superiores e abertos a uma comunhão de compreensão,
respeito e confiança recíprocos. Esta nova comunidade não se fundamentava nos
privilégios de classe ou de casta, mas na graça de Deus, que unifica também as
realidades mais diversas.
Os dois Santos podem levar-nos ao verdadeiro zelo missionário e à sólida
comunhão eclesial
2. Às vezes, poder-se-ia ter a impressão de que ainda hoje existe um profundo
abismo que separa o Oriente do Ocidente. Esta separação não é apenas uma
realidade geográfica, histórica ou política, mas parece dividir, em primeiro
lugar, o coração humano. Talvez seja por isso que a missão da Igreja no Oriente
é frequentemente considerada em termos bastante críticos, como uma imposição
inadequada de crenças e de valores sobre povos que não estão dispostos a
aceitá-los.
Por isso, agrada-me imensamente, hoje, ouvir que milhões de católicos na Índia e
noutras regiões se definem com alegria e gratidão, como cristãos de S. Tomé. Uma
associação sentida de maneira tão profunda seria impensável se S. Tomé, a sua
figura e os seus ensinamentos não tivessem sido aceites de modo aberto, do
íntimo do coração e com gratidão pelas pessoas que o ouviram e pelos seus
descendentes, não como algo imposto mas sim acolhido. Parece que S. Tomé foi um
homem por quem as pessoas na Índia se apaixonaram; e, por outro lado, ele também
se apaixonou por elas. Muitos séculos mais tarde, numa época em que outra onda
de missionários partia para o Oriente, S. Francisco Xavier não só impressionou
as velhas e as novas gerações de Jesuítas no Ocidente mas também, por sua vez,
ficou supreendido com a fé que encontrou já implantada no Oriente. Também aqui
observamos um zelo missionário que só fez surtir os efeitos desejados porque
atraía com o amor, e não com a força, a avidez e a ambição. Estas duas figuras,
o apóstolo e o missionário, tão amadas e veneradas por toda a Igreja, mas de
modo particular pelos cristãos na Índia, só podem indicar-nos o caminho para o
autêntico zelo missionário e a sólida comunhão eclesial, se nos deixarmos
orientar por elas.
O Caminho de Tomé: a resposta ao mistério da vocação divina
3. O caminho começa com uma vocação, uma vocação concedida por Deus. A missão
autêntica é o mistério da resposta a uma vocação, e não a tomada de uma
iniciativa de modo isolado. Num trecho particularmente dramático do Evangelho de
S. João, S. Tomé rompe o silêncio para infundir coragem nos seus companheiros de
discipulado, dizendo-lhes: "Vamos, também nós, morrer com Ele!" (Jo 11, 16).
Porém, depois desta expressão de lealdade inabalável, por alguns instantes o seu
espírito duvidoso parece levá-lo a perder o equilíbrio e ele pergunta qual é o
caminho (cf. Jo 14, 5), levando Jesus a dar-lhe uma das definições mais famosas
que Ele jamais dera de si mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" (Jo 14,
6). Para salvar a todos através da graça do Filho, a vocação recebida de Deus é
tão poderosa que torna possível aquilo que parece impossível e reconcilia o que
parece irreconciliável.
Ser convidado desta maneira recorda-nos com grande vigor que a nossa vida não
nos pertence a nós, mas a Deus e, por conseguinte, a Cristo. Para uma vocação
tão abnegada, são necessárias pessoas altruístas. S. Tomé era uma destas pessoas
e correspondeu à sua vocação. Ele era enviado por Cristo, e estava consciente
disto. Todavia, a sua resposta não foi totalmente desprovida de numerosos
desafios externos e internos. Vemos S. Tomé ameaçado por uma luta interior entre
a sua lealdade inata e o seu candor desarmante. Talvez seja por este motivo que,
nos Evangelhos, ele parece estar com frequência ligado ao caminho e à procura do
caminho. O problema apresentou-se na única vez em que ele estava ausente,
naquele fatídico domingo, quando a dor o obcecou e, por um momento, não
conseguiu acreditar. Mas também nisto ele não está sozinho, porque nenhuma das
onze aparições do Senhor ressuscitado, narradas pelo Evangelho, encontrou as
pessoas prontas.
Se S. Tomé se emendou, foi porque queria viver em harmonia com os seus
companheiros. Assim que voltou para o seu grupo, mostrou-se à altura da
situação. Quando o Senhor apareceu pela segunda vez, S. Tomé pronunciou a máxima
expressão de fé que se encontra no Evangelho: "Meu Senhor e meu Deus!" (Jo 20,
28). Ele não sabia que, depois de ter vivido a experiência mais excelsa, a
conclusão daquela viagem representava apenas o início de uma nova peregrinação,
que o levaria até à Índia.
Ali, os seus discípulos, tanto ontem como hoje, definiram aquilo que o Apóstolo
lhes ensinou, como "o Caminho de Tomé". Ele nunca foi entendido como senda
substitutiva daquele que é o Caminho para o Pai, nosso Senhor e nosso Deus, mas
como um caminho que para Ele conduz.
S. Francisco Xavier uniu o "Caminho de Tomé" ao "Caminho de Pedro"
4. Os frutos das sementes lançadas pelo Apóstolo foram recolhidos pelo
Missionário, quando Deus quis. Desde a sua chegada a Goa, no dia 6 de Maio de
1542, o próprio Francisco Xavier manifestou a sua devoção a S. Tomé. Durante a
sua permanência na Índia, que durou dois anos (1542-1544), não apenas visitou o
santuário de S. Tomé em Mylapore, perto de Madrasta, mas também partiu em busca
dos cristãos de S. Tomé em Coxim e Travancore. Além disso, falou com particular
ênfase da sua estadia na ilha de Sukotra, embora alguns dos seus comentários
possam surpreender-nos.
"Os nativos - escrevia ele - proclamam-se cristãos e sentem-se orgulhosos disto
(...) Eles possuem igrejas, cruzes e santuários iluminados (...) Estas pessoas
veneram de modo especial o Apóstolo S. Tomé e acreditam que remontam aos
cristãos que ele converteu nessas regiões. Durante a oração, os sacerdotes
repetem com frequência: "Aleluia! Aleluia!" e pronunciam esta palavra
precisamente como nós (...) Durante a minha permanência na ilha, baptizei muitas
crianças, para grande alegria dos seus pais. Com profunda benevolência e uma
pressão bem intencionada, queriam obrigar-me a aceitar os presentes que a sua
pobreza lhes permitia oferecer (...) Depois, pediram-me com insistência que
permacesse com eles e prometeram-me que todos, jovens e idosos, teriam sido
baptizados, se eu não os abandonasse" (Epistolae S. Francisci Xaverii).
A presença, as pregações e as orações de S. Francisco Xavier deixaram uma marca
duradoura nos fiéis da Índia. Confirmando o "Caminho de Tomé", ele uniu-o
amorosamente ao "Caminho de Pedro", de maneira que a fé em Cristo, semeada e
desenvolvida com vigor ao longo dos séculos, pudesse gozar da certeza da unidade
e da verdade dada pelo múnus de Pedro e dos seus Sucessores.
Modelos santos de comunhão autêntica entre o Oriente e o Ocidente
5. O maior dom que o Apóstolo S. Tomé ofereceu à florescente comunidade cristã
da Índia foi o vínculo autêntico e directo com as próprias origens da fé cristã,
com os Apóstolos e o seu ofício, e com Jerusalém. A maior dádiva que, em
seguida, S. Francisco Xavier transmitiu a este mesmo povo, foi a sua união à
própria garantia da infalibilidade cristã, a Roma. Encontrando-se na vida e na
herança dos cristãos na Índia, Tomé e Francisco Xavier tornaram-se como que
gémeos em espírito, inseparáveis na sua mensagem da única fé, da única Igreja,
do único Senhor e Salvador Jesus Cristo.
A separação entre Oriente e Ocidente, tão concreta quanto dolorosa, pode ser
superada. Como no-lo demonstra claramente o testemunho destes dois grandes
pilares da nossa fé, é possível esperar na comunhão verdadeira e autêntica entre
Oriente e Ocidente, se reconhecermos que, embora as pessoas nasçam no Oriente ou
no Ocidente, um coração cheio da graça de Cristo pode abraçar ambos. Os
orientais e os ocidentais não estão apenas próximos uns dos outros nem, muito
menos, devem ser inimigos. Pelo contrário, através da graça de Deus, cada um de
nós pode trazer no coração tanto o Oriente como o Ocidente. Por conseguinte,
falar contra um ou outro significa falar contra si mesmo. É o que sugere o nome
de S. Tomé, o Gémeo. O aniversário deste dia deve imprimir em todos nós aquilo
que pode tornar-se possível através da fé não apenas na Igreja, mas no mundo em
geral. Seguindo o Apóstolo e admirando o Missionário, o nosso coração diz-nos
que o Oriente e o Ocidente podem encontrar-se na harmonia e na paz.
Hoje, a nossa alegria é imensa. Os nossos irmãos e as nossas irmãs da Índia têm
muito de que se sentir orgulhosos, quando contemplam aquilo que os cristãos de
S. Tomé realizaram ao longo dos séculos. Nós, seus amigos e irmãos cristãos,
podemos receber deles preciosas lições de fé, de perseverança e de lealdade.
Este é o momento para reconhecer as abundantes bênçãos divinas derramadas sobre
esta porção do Povo de Deus. Como Prefeito da Congregação para as Igrejas
Orientais, estou verdadeiramente grato a todos aqueles que consideram S. Tomé
como o seu pai na fé e que, no seu ministério, se inspiram em S. Francisco
Xavier, quer eles sejam católicos do Oriente ou do Ocidente, de rito latino ou
de rito oriental. Agora compete-nos a nós mostrar com as palavras e os factos
que não recebemos esta graça em vão.
Maria, Rainha dos Apóstolos e Auxílio dos Cristãos
Nossa Senhora, cuja Imaculada Conceição a única Igreja universal vai celebrar no
dia de amanhã, nos acompanhe ao longo do nosso caminho como Rainha dos Apóstolos
e Auxílio dos Cristãos, levando-nos para Aquele que há-de vir, Cristo, nosso
Messias e nosso Salvador, nosso Senhor e nosso Deus. Obrigado!