PONTIFÍCIO CONSELHO PARA A UNIDADE DOS CRISTÃOS
A PRIORIDADE DA ORAÇÃO - REFLEXÕES DO CARDEAL PRESIDENTE WALTER KASPER
A partir do Concílio Vaticano II, a aproximação entre a Igreja católica e as
outras Igrejas e Comunidades eclesiais fez grandes progressos. Pedras miliares
deste caminho foram principalmente a ab-rogação das excomunhões de 1054 entre
Roma e Constantinopla, as Declarações cristológicas com as antigas Igrejas do
Oriente, e a assinatura da Declaração comum sobre a Doutrina da Justificação com
a Federação Luterana Mundial. O verdadeiro fruto do diálogo ecuménico é,
contudo, a fraternidade que os cristãos reencontraram. De facto, hoje já não nos
consideramos inimigos ou concorrentes e já não somos indiferentes uns aos
outros. Voltamos a descobrir que somos irmãos e irmãs a caminho rumo à unidade,
àquela unidade querida por Cristo. Esta redescoberta não foi o resultado de um
filantropismo liberal ou de um vago espírito de família; ela baseia-se no
reconhecimento do único baptismo (cf. Ut unum sint, 42).
Os grandes acontecimentos ecuménicos do Jubileu de 2000, as visitas do Papa a
alguns países de maioria ortodoxa e as visitas realizadas pelos Patriarcas
ortodoxos a Roma, como por exemplo a do Patriarca da Igreja ortodoxa romena, Sua
Beatitude Teoctisto, no ano passado, assim como os "Dias de Oração pela paz no
mundo" de Assis em 1986 e em 2002, realçaram os progressos ecuménicos realizados
até agora. Este caminho de aproximação, como recordou várias vezes o Santo
Padre, é irreversível. Foi o próprio Cristo que o traçou para nós, Ele que, na
vigília da sua morte, rezou para que "todos sejam um só" (Jo 17, 21).
Apesar de tais progressos, não se pode deixar de notar que a aproximação
ecuménica, no curso dos últimos anos, se tornou mais lenta e também mais
difícil. Começou a faltar o entusiasmo originário que muitas vezes provinha de
expectativas utópicas, e surgiram novas dificuldades. Com as Igrejas Ortodoxas,
depois da mudança política dos anos 89/90, surgiu o problema do chamado
"uniatismo". No que se refere ao diálogo com as Comunidades eclesiais do
Ocidente, as dificuldades maiores concentram-se sobretudo na questão
eclesiológica e, em particular, sobre o ministério eclesial. A situação torna-se
mais complexa também devido à existência de respostas diversas a alguns
problemas éticos fundamentais. Estamos cada vez mais desiludidos com o facto de
ainda não ser possível participar juntos na mesa do Senhor.
Nesta situação, um crescente activismo não é suficiente para fazer progredir o
movimento. Sem dúvida, não devemos reduzir o compromisso e devemos continuar a
fazer tudo o que for possível, mas a unidade da Igreja não se realiza com a
nossa vontade humana. A unidade é um dom do Espírito Santo. Nós podemos rezar
apenas para que Deus derrame sobre nós o seu Espírito e conceda um novo
Pentecostes. Numa situação que hoje se tornou mais difícil, devemos antes de
mais fazer referência às raízes espirituais mais profundas do nosso empenho
ecuménico. O Concílio Vaticano II falou do movimento ecuménico como de um
impulso do Espírito Santo (cf. Unitatis redintegratio, 14) e realçou: "Esta
conversão do coração e esta santidade de vida, juntamente com as orações
privadas e públicas pela unidade dos cristãos, devem ser consideradas como a
alma de todo o movimento ecuménico e podem justamente chamar-se ecumenismo
espiritual" (Ibid., n. 8). É precisamente da força dinâmica do Espírito Santo
que temos necessidade para imprimir um novo impulso ao compromisso ecuménico.
A "Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos", promovida pelo Padre Paul Irénée
Couturier, é justamente considerada como um dos acontecimentos fundamentais do
movimento ecuménico. Esta "Semana" do mês de Janeiro, cuja conclusão coincide
com a Festa da conversão do Apóstolo Paulo, a 25 de Janeiro e que, nalguns
países, é celebrado no Pentecostes, é o fulcro e o ápice das actividades
ecuménicas do ano litúrgico. Além dela, devem ser mencionadas várias iniciativas
e realidades espirituais. Recordo, por exemplo, o "Dia mundial de oração das
mulheres", que começou em 1927; a grande carga espiritual que emana da
comunidade de Taizé e que envolve sobretudo os jovens; a rede mundial da "Arche"
fundada por Jean Vanier em 1964 e composta por comunidades de pessoas
deficientes; os numerosos mosteiros e movimentos espirituais cujo carisma é
precisamente a oração pela unidade; o intercâmbio espiritual entre mosteiros no
Ocidente e no Oriente, entre comunidades religiosas e com comunidades anglicanas
e evangélicas.
É muito importante a leitura e a meditação da Sagrada Escritura. De facto, a
Bíblia é o fundamento comum e o alimento espiritual da qual tiram inspiração
todas as Igrejas e Comunidades eclesiais.
Sobre a Sagrada Escritura e sobre a sua interpretação, dividiram-se católicos e
protestantes; eles devem encontrar-se hoje de novo na Sagrada Escritura.
Aprendemos da Bíblia que não podemos ser cristãos e que não pode existir
ecumenismo verdadeiro sem a conversão dos corações; sem perdão recíproco dos
juízos injustos e dos actos cometidos por uns contra os outros; sem purificação
da memória; sem renovação da vida espiritual dos indivíduos e da Igreja no seu
conjunto; e também sem a santificação pessoal.
O restabelecimento da plena comunhão é uma tarefa espiritual, antes de ser
institucional. O diálogo ecuménico é muito mais do que uma simples troca de
opiniões. Dado que constitui um intercâmbio de dons, ele é um processo
existencial e espiritual (cf. Encíclica Ut unum sint, 28), em que os cristãos de
todas as Igrejas se abrem uns aos outros, prontos para se ouvirem
reciprocamente, se compreenderem e se aceitarem, dispostos a aprender uns com os
outros; para receberem e se deixarem enriquecer mutuamente e para crescerem
juntos num só Espírito. Este movimento horizontal só é posível se estiver
inscrito no âmbito do movimento vertical de uma oração incessantemente elevada
pelo advento do Espírito Santo, o Espírito de unidade, de paz e de amor para com
Deus e para com o próximo.
Por isso, falamos da prioridade da oração. De facto, podemos ter a certeza de
que o Pai nos há-de conceder tudo o que lhe pedimos em nome de Jesus (cf. Jo 15,
16). E que dom podemos pedir em nome de Jesus, que seja mais precioso do que a
unidade dos seus discípulos?